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NADA MUDA NO QUE MUDA


Porque teremos de encontrar um eixo onde tudo chega ao fim, e começa de novo? Porque teremos que desenhar um micro-cosmos, pseudamente controlado, em que o tempo parece depender do nosso próprio desenho do seu arco?
“O Ano Mil” de Georges Duby trabalha os medos vindos da própria programação do tempo: "Para o cristianismo, a História possui uma orientação. O mundo tem uma idade. Foi criado por Deus numa certa época. (…) Alguns textos, os da Sagrada Escritura, permitem o cálculo das datas, a da criação, a da encarnação, logo o discernimento dos ritmos da História. Estes mesmos tempos- os que utiliza Abbon-, os Evangelhos, o Apocalipse anunciam que um dia virá o fim do mundo. Ver-se-á surgir o Anticristo que seduzirá os povos da terra. Depois o céu abrir-se-á para o regresso do Cristo em glória, vindo julgar os vivos e os mortos.»
Tudo isto nasceu de uma contagem do homem a partir de um facto. Independentemente da fé, uma civilização não pode ver o seu fim: mas dramaticamente precisa de o realizar, de compreender esse ponto, como que podendo olhar-se e recomeçar. Infelizmente a comemoração do fim, a imposição de um limite, não nos traz nada de aprendizagem. Lutamos contra o tempo, não somos ele. Neste mundo simultâneo, valha-nos Woody Allen: “Time is nature's way of keeping everything from happening at once.”
A passagem do ano sempre me pareceu isso: uma festa falsa de uma espécie que pensa controlar o tempo. Aterrorizada com o fim.
[Mas apesar disso, feliz 2008.]

Comentários

Luis disse…
Duas perguntas interessantes e bonitas (embora subjectiváveis, com respostas dependentes do Outro, como esta)

Em parte pela relação ambivalente com a Morte.

O fim e a morte cria o caos no cosmos e numa perspectiva "Heideggeriana" permite-nos encaixar o presente. Como seria bom acreditar que vivemos no apogeu humanidade. Talvez a maior tentativa disso passe por acreditar que o mundo terá um fim. Uma mentira como tantas outras que gostaríamos de acreditar, em que o fim surge embebido da vontade sermos na realidade o tempo histórico (quem não gostava de viver o tempo que a sua consciência lhe exige?). Confrontados com a incapacidade de emoldurar as leis físicas que nos rodeiam e incapazes de as toldar, somos forçados a viver no desequilíbrio da nossa existência irresolúvel em tão curto espaço de tempo (80 anos?). Assim descontentes encontrámos tantas respostas falsas, em parte atenuantes da ansiedade interior (tanta angústia já vivi). Desde o Sócrates na sua preparação para a morte e libertação da alma, passando pela intensificação do Catolicismo na simples destruição do fim (a eternidade) até à ascesis de Shopenhauer, pela beleza, que põe fim ao sofrimento (leia-se a vida).

Enfim.. Fromm não tem piedade quando afirma que "a vida humana e o seu início e fim num ponto acidental do processo evolutivo da raça, facto que entra em conflito com a vontade humana de realização pessoal plena". Quantos não sentem que os seus descendentes terão uma sociedade com consciência e mecanismos futuros, inevitavelmente melhores?

Mas talvez até isto seja falacioso. A meu ver o terror do fim desaparece na urgência absoluta de sentir o presente. E sentir exige abertura para o outro. Existir com o Outro talvez nos destrua a falta-de-ser e elimine a procura do futuro/fim, ou seja, talvez a autonomia seja um padrasto velho. A passagem de ano, o natal, o aniversário são marcos artificiais de tempo para quem adormeceu, anestesiado e deixou de sentir. Quem vive o “vino veritas” sentirá o descontrolo sobre a sua vida. Quem vive acordado terá o corpo dorido e a mente não conseguirá esquecer-se de que poucos dias foram vividos.

Como diria Derrida “When will we be ready for an experience of freedom and equality that is capable of respectfully experiencing relationships, which would at last be just, just beyond law, and measured up against its measureless ness”, ou seja, seremos capazes de nos mudar e vencer o reinado do tempo, eternamente preenchidos pelos marcos emocionais que temos a cada momento?

"Mas apesar disso, feliz 2008"

obrigado pela leitura,


luis
PS: como avisei o comentário é demasiado subjectivo.
Pedro Sena-Lino disse…
Luis
Obrigado pelo comentário forte e apoiadíssimo.
Concordo que infelizmente não nos é dado o olhar varanda do fim. Mas talvez seja isso a eternidade. Rever e melhorar.
Um abraço,
PSL

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