Avançar para o conteúdo principal

E O ROSTO DESDOBRA-SE


Quando era criança, fascinei-me durante meses com a ideia de Jano. O deus romano de duas caras, que olhava para o ano passado e para o ano futuro. Imaginava terrivelmente quando desaparecia o rosto do ano passado e se substituía o rosto novo por um antigo: quando isso acontecia. No eixo do ano, no preciso último dia de Junho, procurava evidências que me concretizassem a ideia que nesse dia um rosto velho caía, substituído por outro; e nesse mesmo dia o rosto novo tornava-se quebrado pelos anos, começando a surgir outro. Depois comecei a pensar que no eixo do sol, no centro do ano, no Verão, um rosto solar olhava-nos.
O conto de Dickens, com os fantasmas dos Natais anteriores, cimentou a minha ideia de um tempo que não conhece divisões.
Infelizmente o nosso tempo actual não é o tempo dos romanos. Somos conduzidos por ele, por um tempo hiper-contactável, que é sistemática e parafernalicamente regulado por entidades exteriores que roubam a noção do tempo de si. O tempo de si, o tempo para si, é um tempo de outros, onde o espaço de cada um é cada vez mais devassado e consumido. Tornámo-nos um número e um endereço, acessíveis a todo o momento, controláveis, omnipresentes. Isso causa brechas profundas no tempo para cada um. É-se cada vez mais um ser em atitude para os outros, nem sempre desejada ou pretendida, nem sempre vontade. Mas sempre para os outros.
Nem vemos passar de um rosto a outro. Temos sempre o mesmo, presente e disponível. Guardar o nosso rosto para nós, desligarmo-nos da massa, pode ter riscos e consequências.
Um dia um rosto cai e ninguém nota.
Somos uma civilização com graves problemas de identidade. O espaço de cada um, conquista do Ocidente, neste momento é tomado por todos os lados.
Hoje penso que Jano é um sinal: que nestes dias do fim do ano, todos deveríamos encontrar no calendário um momento em que poderíamos desligarmo-nos de um todo procurativo. E sentarmo-nos em nós, a pensar como o nosso rosto mudou. E ver, finalmente, como nos desdobrámos.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…