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Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2007

NADA MUDA NO QUE MUDA

Porque teremos de encontrar um eixo onde tudo chega ao fim, e começa de novo? Porque teremos que desenhar um micro-cosmos, pseudamente controlado, em que o tempo parece depender do nosso próprio desenho do seu arco?
“O Ano Mil” de Georges Duby trabalha os medos vindos da própria programação do tempo: "Para o cristianismo, a História possui uma orientação. O mundo tem uma idade. Foi criado por Deus numa certa época. (…) Alguns textos, os da Sagrada Escritura, permitem o cálculo das datas, a da criação, a da encarnação, logo o discernimento dos ritmos da História. Estes mesmos tempos- os que utiliza Abbon-, os Evangelhos, o Apocalipse anunciam que um dia virá o fim do mundo. Ver-se-á surgir o Anticristo que seduzirá os povos da terra. Depois o céu abrir-se-á para o regresso do Cristo em glória, vindo julgar os vivos e os mortos.»
Tudo isto nasceu de uma contagem do homem a partir de um facto. Independentemente da fé, uma civilização não pode ver o seu fim: mas dramaticamente precisa…

E O ROSTO DESDOBRA-SE

Quando era criança, fascinei-me durante meses com a ideia de Jano. O deus romano de duas caras, que olhava para o ano passado e para o ano futuro. Imaginava terrivelmente quando desaparecia o rosto do ano passado e se substituía o rosto novo por um antigo: quando isso acontecia. No eixo do ano, no preciso último dia de Junho, procurava evidências que me concretizassem a ideia que nesse dia um rosto velho caía, substituído por outro; e nesse mesmo dia o rosto novo tornava-se quebrado pelos anos, começando a surgir outro. Depois comecei a pensar que no eixo do sol, no centro do ano, no Verão, um rosto solar olhava-nos.
O conto de Dickens, com os fantasmas dos Natais anteriores, cimentou a minha ideia de um tempo que não conhece divisões.
Infelizmente o nosso tempo actual não é o tempo dos romanos. Somos conduzidos por ele, por um tempo hiper-contactável, que é sistemática e parafernalicamente regulado por entidades exteriores que roubam a noção do tempo de si. O tempo de si, o tempo para…

Perguntas de um católico sobre uma época comercial chamada Natal, III

Por último: mesmo quando fui neutramente agnóstico, e todos os mistérios me pareceram invenções bem oleadas, o Natal não deixou de sempre me inquietar. Não fui o único: se percorrermos qualquer antologia de poesia sobre o Natal, da última organizada por Graça Moura (Natal, Natais) ou qualquer estrangeira, vemos que o tema foi glosado e pensado por inúmeros poetas. E isso tem muitíssimo a ver com a mais inesperada, rasgada surpresa de uma criança filha de Deus nascida em palhas.
Se um coro de anjos, prodígios maravilhosos, acontecimentos geológicos incríveis, tremores de terra e relâmpagos desfigurando o céu tivessem anunciado ao mundo inteiro o nascimento de Cristo, todos seríamos forçados a acreditar. Preferiu antes ser uma criança anónima nascida num lugar de empréstimo e de passagem.
Estrangeiro da sua própria natureza.

Perguntas de um católico sobre uma época comercial chamada Natal, II

Alguns sectores “conservadores” (poderia chamar-lhes bárbaros, mas fiquemos pelas aspas) nos Estados Unidos e um pouco por aí, assentam toda a simbólica da criança-Deus como uma mensagem divina anti-aborto. Esta linha de pensamento parece-me que periga muito a consideração religiosa do Natal. A época, devorada pelo comércio como a sua época mais fiável e produtiva (como já nem os saldos são), afasta-se do seu significado não apenas por esta devoração: mas porque este tipo de argumentação cola-se à simbólica. E acaba por colonizá-la.
Qualquer civilização que não se encontre na sua simbólica (seja ela qual fôr) está decadente. O Ocidente, assente no cristianismo como raiz, não trabalha simbolicamente com liberdade a sua matriz identitária. Não entendemos que os símbolos do cristianismo são para ser revisitados, perguntados, multifigurados. Qualquer revisão, qualquer revisitação é mal vista. Separámos Igreja de progresso científico há centenas de anos, mas ainda não temos liberdade criati…

Perguntas de um católico sobre uma época comercial chamada Natal, I

não tenho o hábito de assinar nada ou defender nada do ponto de vista do católico que sou. porque creio que a minha fé é uma relação pessoal que deve, sem ser expressa por palavras, alterar em actos a minha vida e a dos outros. o desafio de o conseguir ou não, é comigo. as declarações (as anunciações) são pessoais, não impositivas: é um dos erros frequentes que séculos de evangelização fizeram.
mas chegando ao Natal, ao tema que mais move carteiras no Ocidente sob um pretexto religioso, e que centraliza ambientes, atitudes e expectativas, sempre tive uma curiosidade inquieta, perguntada em mim muitas vezes, sobre o sentido de tudo isto. pergunto-me muitas vezes o que acaba por ser o Natal.
encontro-me muito mais na ressurreição: na certeza de que um incómodo condenado à morte por oligarcas judeus (mas com a máfia italiana imperial a fazer o trabalho) transcendeu todos os dias e actos da sua vida e venceu a morte. essa é a minha esperança: que tudo passe à vida da eternidade, cada segund…

«Same people, different books»

A frase é de um velho inspector da CIA, que ocupa a cena nos dois últimos episódios da season II de The Closer. The Closer é das melhores séries actuais, com enredos conseguidíssimos, reveladores da situação e realidade sócio-cultural de Los Angeles, com personagens coladas à vida, sem sofisticações, e com a crueza e a burocracia de qualquer esquadra ocidental. The Closer e a sua protagonista, Brenda Lee Johnson (Kyra Sedwick) merecem um outro post, mas agora a frase. O inspector que a proferiu contava a Brenda que durante cinquenta anos de carreira ouvira generais nazis a recitarem “Mein Kampf” enquanto atiravam judeus para câmaras de gás; tiros na nuca enquanto KGBs sussurravam Marx e Engels; e agora loucos a assassinarem inocentes adulterando Maomé. As mesmas pessoas, livros diferentes.
Os livros que estruturam a civilização ocidental vieram do Oriente. O Antigo Testamento, no seu encruzilhar emaranhado de mitos sumérios, babilónicos, egípcios reescritos e revistos, na própria natur…