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O ORIENTE MUDOU-SE (OU FOI O OCIDENTE?)

Há dias acabei de ver em DVD a segunda série de Roma.
Discutíveis opções e saltos históricos, a verdade é que o luxo de época e a encenação sobrepõem-se, naquela que já é a série mais cara de sempre, e que é sabido não vir a ter mais sequelas.
Ao assistir a tudo, mas sobretudo à orientalização de Marco António, pareceu-me que o Oriente já não fica no mesmo lugar. Que o Oriente era um lugar e uma significação, uma expectativa, uma fuga real e dourada, durante milénios; e que deixou de o ser. Quando? A verdade é que até ainda Álvaro de Campos, num poema mais século XIX na forma mas explosivo de século XX, dizia procurar “um Oriente ao Oriente do Oriente”, mas isso mesmo já queria indicar que o Oriente já não era o mesmo. A distância da diferença, o lugar do contrário exótico, da fuga concretizada, possível, dos hábitos antigos, mudou de lugar. Nós hoje somos o Oriente de outro Ocidente, que começa depois da Gronelândia e vai acabar perto da Índia.
E até que ponto não nos “orientalizámos” nós? Grandes impérios habituados ao centro do mundo, ao soar dos títulos, às riquezas e vassalagens sempre por chegar? A segunda guerra mundial terminou com isso, com a quase asfixia do império da época, a Grã-Bretanha. As corridas do Norte de África entre Rommel e Montgomery, de Cartago ao Egipto, como que repetiram acabando séculos de conquistas e de procura entre o “nosso” Ocidente e com o nosso Oriente. Somos os grandes impérios perdidos a que turbas de americanos e japoneses (e não tarda, chineses) vêm descobrir e guardar em objectivas; como outrora viajantes e comerciantes devassavam de Bizâncio a Samarcanda, Alexandria a Pequim, um Oriente total e contrário.
Mas ainda envolvidos pelo manto e poeira do passado, pelos “indícios de ouro” tidos, o que sabemos de nós? Compreendemos que agora somos o Oriente?
A terra move-se; e afinal em muito mais formas do que na sua órbita. Mas para onde se movem as civilizações quando as suas próprias identidades se movem?

Comentários

Carreira disse…
O texto está magnífico.
Os meus parabéns.
Abraço,

José Carreira

(www.cegueiralusa.com)
Parece que há aqui dois sentidos de Oriente: o exótico e o que está fora do centro. O que está longe do centro, pode ser apenas periferia e civilizacionalmente ser ainda do Ocidente. Se o centro do Ocidente se mudou mais para Ocidente, não é necessário que nos tenha expulso do Ocidente.
Mas há um outro sentido em que nos orientalizámos, ou talvez mais propriamente, deixámos o Oriente entrar dentro de nós: quer pelas imigrações quer pela mão das religiões e espiritualidades orientais. Mas isso mesmo, ironicamente, também se verifica no actual centro do Ocidente...
Pedro Sena-Lino disse…
agradeço os comentários e as importantes sugestões. Creio, Pedro, que o sentido do texto ia nessas duas direcções, e numa terceira: que o exótico (e) o periférico são uma terceira coisa: o diferente antigo, ultrapassado mas sábio. Parado mas questionador.

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