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L'Agonie de Byzance


L'Agonie de Byzance é o título de um filme francês que nunca vi, realizado em 1913 por Louis Feuillade, um dos realizadores (a palavra cineasta caiu em desuso, repare-se) mais re-conhecido em todo o mundo, no período imediatamente a seguir à 1ª guerra mundial. Mas refiro-me a este filme, pelo seguinte: o título, na versão original, é obviamente um abraço ao Ludovic, que tenho o prazer de conhecer pessoalmente e de quem trago ainda na memória (direi mais no estômago) o sabor de um jantar arménio, todo confeccionado por ele, na casa do Pedro Sena-Lino. Para além das suas palavras, inteligência e sensibilidade, para que conste, os dotes culinários do Ludovic são a antítese da agonia. O título do filme faz-me também lembrar muitas e muitas conversas tidas com o Pedro Sena-Lino, amigo de uma conquista infindável e plena de amizade, muito para além da vida e morte das cidades. A agonia (em Bizâncio, um século e meio de agonia) enfim, terá mais a ver comigo, porque escrever assim, de uma forma exposta, causa-me uma ansiedade terrível, a sensação que não tenho nada a dizer porque tudo já foi dito. E talvez assim seja, o que sempre me impediu de ter um blog, ou de os manter secretos, momentaneamente alimentados mas eternamente abandonados. Vivo um pouco isolado do mundo e não escreverei, penso, sobre as subidas dos impostos ou as vaidades ministeriais sem a sensação de desamparo perante a realidade. Escreverei talvez com mais afinco sobre a cabeça de um alfinete do que sobre a cabeça do Estado, mais sobre a folha de papel do que sobre a chapa de alumínio. Continuará a não ter interesse pálpavel, mas descansar-me-à infinitamente mais. O nascimento e a queda de uma cidade, de uma civilização, de uma pessoa, de um amor, pode caber inteiro na cabeça de um alfinete. Seremos sempre demasiadamente pequenos perante a ruína do mundo. A propósito, recomendo este livro: Titre : Vie et mort de Byzance, Auteur : Louis Bréhier, Editeur : Albin Michel, Nombre de pages : 632, Publication : Mai 2006.

Comentários

etanol disse…
Alexandre, gostava de ler mais textos teus assim porque é uma boa surpresa, sobertudo para quem conhece os teus peculiares poemas.
:)
Maria João
Pedro Sena-Lino disse…
Óptimo, Caro Nave! Uma parede ou um alfinete em Bizâncio tem muito que contar. É tudo uma questao de ponto de vista

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