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Geometria dos (im)possíveis


« Perdemos o centro ». Também acho. E não só. Também perdemos o norte e os sentidos.

Um exemplo: Portugal na semana passada inventou o “HIV dos cozinheiros” que tem a grande singularidade de ser transmissível pelo suor. Mas não faz mal, já que Scolari se mostra satisfeito com o sorteio da fase de qualificação para o próximo campeonato do mundo de futebol. Em França, ao mesmo tempo, o Presidente Sarkozy viaja para China concretizando contratos comerciais de vinte mil milhões de euros...deixando em casa a Secretária de Estado dos Direitos Humanos...

Cada dia novo parece mais uma promessa da piorítica -a política do pior- e da mashpotatização da nossa cultura, como diz o cantor francês Jean-Louis Murat.

“Perdemos o centro”. Mas acho que não há mais centros. Somos agora, pelo contrário, um anel numa miríade de anéis despolarizados, descentrados e des-saturnizados. E estes anéis todos teriam, numa geometria pós-espacial e surreal, que defrontar o astro à volta do qual giram sem fim, para se enxergar e enxergar a fragilidade do seu destino comum. E para ver surgir, depois do luto do descentramento, a luta da anelização para se viver em harmoniosa constelação, dos antípodas, do longe e do próximo.

Podia ajudar, para se inscrever nessa nova existência e para conviver com todos e cada um, vivificar, vinificar a língua. Co-inventá-la, aviventá-la, coitocopulá-la com refogado criando um linguajar novo, ainda mais novo que o Coca Cola zero sem chumbo (aliás melhor é beber zero Coca Cola) e os biocarburantes sem açúcar. Uma língua, em suma para puntupantar:

Conte, conte je veux conter un conte!

Laissez-moi me coucher sur le dos d'un pantal,

Plonger dans la parole et y nager à grandes brassées.



J'y nagerai, et mes pieds battant l'eau feront puntupanta.

Ce que je vais dire est plus merveilleux qu'un songe!


Hampaté Bâ, "Contes initiatiques peuls".

Comentários

Prezado Senhores

Sarja Akhmani é oriundo de uma nobre família iraniana com muitos primos na
Linha. Perspicaz como poucos e parvalhão como quase ninguém, Akhmani
propõe-se observar, com um olhar estrangeiramente distanciado, o vosso país
e a Europa em geral, à semelhança do que fez o seu parente Monstequieu no
séc xviii, com as suas Lettres Persannes.

Já sei que os mais ousados de entre vós irão contrapor que Monstesquieu não
era persa, mas francês. Detalhes. A esses críticos malévolos, dir-se-à que
Monstesquieu era na realidade francês, mas podia ter sido persa. Dito isto,
é fácil presumir que comecem a duvidar do parentesco de Sarja com o autor
francês. Nada mais injusto! Vá lá, atrevam-se a falar com os primos que ele
tem na Linha...



Foi justamente a pedido de várias famílias da Linha de quem o repórter Sarja Akhmani é primo, que este
achou por bem coligir num novo blogue os textos que foi
produzindo no "cresceiemultiplicai.vos". Assim, é de salientar o cuidado que
Sarja teve em escolher justamente os seus piores textos humorísticos, ou não
fosse este o pior blogue de humor da blogosfera portuguesa.


O lançamento do novo blogue contará com a presença de José Sócrates,
primeiro-ministro do Irão, e de um novo post do repórter sobre o
provincianismo português.


http://obloguedosarja.blogspot.com


Grato pelas vossas visitinhas


Sarja, o repórter iraniano

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