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DORES DE DESCENTRAMENTO


O que se passa na Europa Ocidental nestes anos, com todas as questões de deslocalizações de empresas, de pesados déficits devido a pesados Estados-Providência – e sobretudo, o que se passa com o Estado que se tornou cobrador em vez de Providência, tem a ver com o nosso descentramento. Porque deixámos de ser o centro, pagamos esse custo. Não é apenas em termos simbólicos, como víamos no post anterior; mas também e antes de mais em termos económicos e sociais. Desde Roma que nos habituámos a ser o centro cultural, a metrópole onde tudo aflui. Conquistámos e colonizámos séculos depois continuando este centro. Alimentámos os nossos Estados, as nossas economias, o nosso modelo de civilização, a partir de sermos esse centro.
Mas não o somos mais. E agora, todas estas ideias concretizadas caindo, a segurança europeia, as velhas bases de uma cultura sustentada no cidadão, desaparecem. Tornámo-nos tão económicos que uma discussão do orçamento de Estado causa mais frisson do que um debate sobre o futuro da Europa. Estamos desesperados, contando os tostões e desfazendo os laços uns com os outros, para sustentar uma coisa que perdeu as formas práticas de se sustentar.
Creio sinceramente – e não sou o único, o brilhante (e muito discutível, em certos momentos) At the End of an Age, de Lukács trabalha-o consistentemente – que estamos colocados no fim da era da Europa. Se a quebra é de tal modo igual ao fim do Império Romano, em que uma ordem moral e religiosa veio impôr-se sob os escombros da “Pax Romana”, é cedo para dizer; é cedo para dizer se teremos de reinventar tudo, ou deixar os escombros fazerem uma nova versão do Ocidente.
Mas perdemos o centro, mas não queremos ver que o perdemos dentro de nós.
Há que ter uma nova atitude, que tem de combater em nós o complexo de centro. Há que deixar atitudes coloniais, sonhos imperiais.
A dor é um sintoma e um caminho para a cura. É a partir daí que temos de trabalhar.

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