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Considerações sobre o estado do Estado, II


(Após uma leitura de Gomes Leal)

O Estado é, nos nossos dias, uma hidra composta de diversas cabecinhas diferentes. Vamos lá a ver se as conseguimos contar.


a) Podador – Ou, parafraseando Cesariny, poda (com) dor. Não se limita a cortar o excesso para – vamos lá – ser um Robin dos Bosques justo, munido de computadores quando o outro tinha flechas, e de um projecto enquanto o outro tinha uma aventura de justiceiro. Corta o excesso dos poucos, e não sabemos muito do excesso dos excessos. Fica-se chocado ao ver um mapa como o do destaque do “Público” de quarta-feira, dia 17, em que éramos o único país na Europa Ocidental com mais de 5% de população em nível de pobreza.
O Estado não se pode queixar de falta de informação, nem de falta de meios, nem de falta de legitimidade. A aliança europeia, o déficit, políticas comuns, deram-lhe o peso e a autoridade que em Portugal só poucas cabeças tiveram. Aliás, vergonha histórica sucessiva, nos períodos em que fomos uma nação e independente as asneiras foram imensas: se fomos ver o estado financeiro do país no tempo do Califado de Córdova, ou mesmo antes, duzentos anos após a ocupação romana, os resultados são espantosos.
É o momento de começar a podar onde interessa e a restabelecer o sentido do que o país pretende como objectivo global. Estamos num momento em que o objectivo é poupar. Ninguém sabe para quê. E poda-se cegamente: pagámos contas que gerações de portugueses não tiveram de o fazer, sem malaguetas, pimentas, ouro ou tráficos.
Está-se a cortar perto demais do osso.

b) Controlador
A loucura de recuperar dinheiro perdido faz com que já esteja a ser previsto ao Estado penhorar para 2008, numa operação inconstitucional. Parece a história da mãe que batia no filho logo que acordasse e antes de dormir, para não fazer disparates durante o dia, antes ou depois.
Hábitos de confiscação como estes levam a descrédito. A palavra é irónica, porque quer literalmente dizer “perder o crédito”, mas não é só de dinheiro que falamos quando falamos de dinheiro: é da perda da base das relações, da perda da confiança. Todas as revoluções neste país começaram pela perda da confiança. John Lukács chamava a atenção em livro recente (Five Days in London) que a opinião pública e o sentimento popular são coisas distintas, e que se pode perder um e manter o outro. Neste momento, esta política está a fazer perder ambos.
E esta política não tem a ver com este governo de cor rosa ou cinzenta. Tem a ver com a falta de noção de cidadão e de Estado, precisamente na civilização que inventou o Estado, na Grécia, há milhares de anos atrás.
Esta deturpação da Democracia, das políticas sociais, do papel regulador do Estado, é dos piores sinais para o estado de uma civilização.


c) des-mecenas
Nem vale a pena pensar no Renascimento, nem ir à Itália dos Papas e das Repúblicas ver o apoio à arte. A política de públicos que o Estado devia fazer, de suporte de actividades que gerem públicos e aumentem a base cultural dos cidadãos, é nenhuma. Temos a distribuição de subsídios a grupos culturais – o mínimo – mas um desinvestimento na cultura de proximidade no interior, nas bibliotecas, nas escolas. Estamos a gerar a morte de uma Europa que tem pouco já que a sustente que não a sua herança cultural.
Investir na cultura neste momento implica – mais do que nunca – investir na Europa. Num momento em que tudo se desvia para pagar contas, em que a lógica do lucro cega tudo, é o momento de investir em investigação cultural, cinema, teatro, livros, traduções: ligar a Europa à Europa, reactivar raízes, desenvolver públicos. É o momento. Não queremos decerto ser uma colónia americana cultural, que tantas vezes mimetiza e mal a própria herança cultural que lhes demos.

Nos próximos dias, voltaremos a contar cabecinhas.

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