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Chegada a Bizâncio

Sinto a honra e o prazer a misturarem-se, ao começar a escrever aqui, ao lado do meu caro amigo Pedro Sena-Lino, grande poeta e camarada de sempre da minha lusatinidade, e do Alexandre Nave, outro grande poeta, cujos lindos poemas são tão intensa e dolorosamente vividos por seres “caídos à saudade sem regresso”, ou “fodid[o]s à noite como fábricas”.

Começo a escrever aqui com um atrasozão causado pelas turbulências do quotidiano. Ensinar o português em França é cada vez mais, à semelhança da sociologia segundo Bourdieu, “un sport de combat”. Aliás, assistimos de novo desde há três dias ao bloqueio das universidades pelos estudantes, para protestar contra a nova reforma, que daqui a pouco transformará as faculdades de letras em Pingo Doce ou perfumarias em pubtrefacção, em que já foram transformados os cinemas de bairro rebeldes à Schwarzeneggerização.

Portanto, falar do declínio do Ocidente parece tão natural e óbvio como abrir o seu e-mail e ver surgir mensagemonstros propondo lotarias gigantes, caixas de viagra, ou sexo oral com animais. Mas de que declínio é que se trata? De um declínio social, moral, cultural, político, económico? De um declínio que parece com certeza logo à primeira vista proteiforme, humanóvoro e de uma fome pantagruélica: Alguns reivindicam sem vergonha querer “vender partes de cérebro disponível à Coca-cola”(Disse em entrevista o Presidente do maior canal de televisão de França, TF1), e a luta é na verdade de cada instante quando se vê tanta gente a Hipotecar, a Hipotetizar partes do seu próprio cérebro, a Profetizar uma felicidade de pipocas sem nunca a Poetizar, a vender em leilões de subúrbios pedaços das suas liberdades fundamentais despedaçadas. “On laisse les allumettes jouer avec les enfants” (“Deixamos os fósforos brincarem com as crianças) diz o cantor francês Maxime Leforestier.

Aliás, participar em blogues também podia parecer às vezes participar de um certo declínio, em que toda gente fala e ninguém ouve nem entende, ao entrar numa logorreia eructante, num verbosismo doentio, tsunaminando o chão da leitura de cada vez mais palavras perpetuamente vomitadas. Enquanto talvez precisássemos do que em francês chamamos de “refonte”, que significa refundição, mas que pode ser muito bonito em português, num sentido de “nova fonte”. E não posso senão concordar totalmente (mas não é nada de admirar) com o meu amigo Pedro quando explica no início deste blogue que não tenciona criar uma bizantinice, mas sim “um diário interior, de alguém que tenta interpretar não só o hoje, mas o que está mais longe e antigo no hoje”. É portanto preciso ter muito cuidado para pensar não só no hoje, mas também no antigo no hoje, aos quais acrescento o amanhã no hoje. E para escrever aqui sem cair numa catarata iguaçuiana de palavras bizantinicescas sem sentido. De facto, às cataratas prefiro um mar de bonança, de bonança de ressaca cor-de-Boémia, para dizer a verdade. Para eu poder demorar a pensar melhor e esquecer um pouco. A hora, ou a data, ou o mês, ou o ano, como a personagem principal do maravilhoso último romance de Patrick Modiano, Le café de la jeunesse perdue, em que

“Encore aujourd’hui, il m’arrive d’entendre, le soir, une voix qui m’appelle par mon prénom, dans la rue. [...] Je me retourne, mais il n’y a personne. Pas seulement le soir, mais au creux de ces après-midi d’été ou vous ne savez plus très bien en quelle année vous êtes.”

Comentários

Pedro Sena-Lino disse…
Incrível como a Europa devora os seus filhos e os seus melhores frutos. Vai ser muito interessante ver a realidade daqui e daí.
Alexandre Nave disse…
Caro Ludovic, sê bem vindo, parece-me que agora tenho mesmo de apressar-me a chegar a Bizâncio, porque certamente os Otomanos já andam à espreita
etanol disse…
Bem! quem escreve assim não é gago, o Ludovic vem dar uma dinamica nova a Bizancio, agora só falta o Nave puxar do seu latim, aliás bom português, que o Ludovic bate muitos portugueses no assunto!
Maria João

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