Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2007

Geometria dos (im)possíveis

« Perdemos o centro ». Também acho. E não só. Também perdemos o norte e os sentidos. Um exemplo: Portugal na semana passada inventou o “HIV dos cozinheiros” que tem a grande singularidade de ser transmissível pelo suor. Mas não faz mal, já que Scolari se mostra satisfeito com o sorteio da fase de qualificação para o próximo campeonato do mundo de futebol. Em França, ao mesmo tempo, o Presidente Sarkozy viaja para China concretizando contratos comerciais de vinte mil milhões de euros...deixando em casa a Secretária de Estado dos Direitos Humanos...Cada dia novo parece mais uma promessa da piorítica -a política do pior-e da mashpotatização da nossa cultura, como diz o cantor francês Jean-Louis Murat. “Perdemos o centro”. Mas acho que não há mais centros. Somos agora, pelo contrário, um anel numa miríade de anéis despolarizados, descentradose des-saturnizados. E estes anéis todos teriam, numa geometria pós-espacial e surreal, que defrontar o astro à volta do qual giram sem fim, para se e…

DORES DE DESCENTRAMENTO

O que se passa na Europa Ocidental nestes anos, com todas as questões de deslocalizações de empresas, de pesados déficits devido a pesados Estados-Providência – e sobretudo, o que se passa com o Estado que se tornou cobrador em vez de Providência, tem a ver com o nosso descentramento. Porque deixámos de ser o centro, pagamos esse custo. Não é apenas em termos simbólicos, como víamos no post anterior; mas também e antes de mais em termos económicos e sociais. Desde Roma que nos habituámos a ser o centro cultural, a metrópole onde tudo aflui. Conquistámos e colonizámos séculos depois continuando este centro. Alimentámos os nossos Estados, as nossas economias, o nosso modelo de civilização, a partir de sermos esse centro.
Mas não o somos mais. E agora, todas estas ideias concretizadas caindo, a segurança europeia, as velhas bases de uma cultura sustentada no cidadão, desaparecem. Tornámo-nos tão económicos que uma discussão do orçamento de Estado causa mais frisson do que um debate sobre …

O ORIENTE MUDOU-SE (OU FOI O OCIDENTE?)

Há dias acabei de ver em DVD a segunda série de Roma.
Discutíveis opções e saltos históricos, a verdade é que o luxo de época e a encenação sobrepõem-se, naquela que já é a série mais cara de sempre, e que é sabido não vir a ter mais sequelas.
Ao assistir a tudo, mas sobretudo à orientalização de Marco António, pareceu-me que o Oriente já não fica no mesmo lugar. Que o Oriente era um lugar e uma significação, uma expectativa, uma fuga real e dourada, durante milénios; e que deixou de o ser. Quando? A verdade é que até ainda Álvaro de Campos, num poema mais século XIX na forma mas explosivo de século XX, dizia procurar “um Oriente ao Oriente do Oriente”, mas isso mesmo já queria indicar que o Oriente já não era o mesmo. A distância da diferença, o lugar do contrário exótico, da fuga concretizada, possível, dos hábitos antigos, mudou de lugar. Nós hoje somos o Oriente de outro Ocidente, que começa depois da Gronelândia e vai acabar perto da Índia.
E até que ponto não nos “orientalizámos” n…

L'Agonie de Byzance

L'Agonie de Byzance é o título de um filme francês que nunca vi, realizado em 1913 por Louis Feuillade, um dos realizadores (a palavra cineasta caiu em desuso, repare-se) mais re-conhecido em todo o mundo, no período imediatamente a seguir à 1ª guerra mundial. Mas refiro-me a este filme, pelo seguinte: o título, na versão original, é obviamente um abraço ao Ludovic, que tenho o prazer de conhecer pessoalmente e de quem trago ainda na memória (direi mais no estômago) o sabor de um jantar arménio, todo confeccionado por ele, na casa do Pedro Sena-Lino. Para além das suas palavras, inteligência e sensibilidade, para que conste, os dotes culinários do Ludovic são a antítese da agonia. O título do filme faz-me também lembrar muitas e muitas conversas tidas com o Pedro Sena-Lino, amigo de uma conquista infindável e plena de amizade, muito para além da vida e morte das cidades. A agonia (em Bizâncio, um século e meio de agonia) enfim, terá mais a ver comigo, porque escrever assim, de uma…

Chegada a Bizâncio

Sinto a honra e o prazer a misturarem-se, ao começar a escrever aqui, ao lado do meu caro amigo Pedro Sena-Lino, grande poeta e camarada de sempre da minha lusatinidade, e do Alexandre Nave, outro grande poeta, cujos lindos poemas são tão intensa e dolorosamente vividos por seres “caídos à saudade sem regresso”, ou “fodid[o]s à noite como fábricas”. Começo a escrever aqui com um atrasozão causado pelas turbulências do quotidiano. Ensinar o português em França é cada vez mais, à semelhança da sociologia segundo Bourdieu, “un sport de combat”. Aliás, assistimos de novo desde há três dias ao bloqueio das universidades pelos estudantes, para protestar contra a nova reforma, que daqui a pouco transformará as faculdades de letras em Pingo Doce ou perfumarias em pubtrefacção, em que já foram transformados os cinemas de bairro rebeldes à Schwarzeneggerização.Portanto, falar do declínio do Ocidente parece tão natural e óbvio como abrir o seu e-mail e ver surgir mensagemonstros propondo lotaria…

JUSTIÇA DE LUXO

JUSTIÇA DE LUXO
No “Público” de hoje, duas notícias demonstrativas: o Ministério da Justiça gastou 135 mil contos em carros de luxo; mas alguns museus (como Arte Antiga e Arqueologia, dos mais importantes do país…) vão fechar salas por falta de pessoal.
Para além dos desnecessários comentários que merece o facto da Justiça precisar de andar de luxo, não podemos esquecer que se trata de um governo socialista que faz este tipo de opções. Percebemos bem que, infelizmente, já não há consciência política para estar atento a disparates destes.
O que é mais grave de tudo isto não é fechar salas para comprar carros; disparates de gestão e falta de consciência sempre os houve. Cada vez entendo com maior clareza a frase de Cristo “pobres, sempre os tereis convosco”: estes pobres [de espírito] que não sabem gerir a riqueza de todos senão empobrecendo-a, e os pobres que somos por sermos geridos desta forma, por nos ser retirado o que é nosso.
Retirado o que é nosso pelo Estado. Já nem a ideia de um s…

corrente lógica aleatória

Seguindo uma corrente lógica que tem percorrido vários blogues, aqui a publicamos (regulamento e resultado)
regulamento:(editado)
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;

RESULTADO
in The Decline and Fall of the Roman Empire, de Edward Gibbon
«It was probably some ingenious fancy of comparing the thirty tyrants of Rome with the thirthy tyrants of Athens that induced the writers of the Augustan History to select that celebrated number, which has been gradually received into a popular appelation.»

SOMOS TRÊS E MEDITERRÂNICOS

O nosso terceiro elemento juntou-se a nós. Trata-se do meu amigo e especialista em Literatura Portuguesa e Africana Ludovic Heyraud. Professor em Montpellier, junta a estes velhos lisboetas o seu cantar Mediterrânico. E em português, de que é um tão correcto falante que chegou a ganhar «Scrabble» a dois portugueses.
Reafirmo e reafirmamos as ressalvas quanto ao carácter comum do blogue, e à riqueza e diferenças de uma voz nova. continuaremos todos por cá, no barco partido da Europa, a interpretar ruínas e águas.

DOIS NA NAU IMOVELMENTE MÓBIL

A partir de hoje junta-se à minha voz solitária de crónico de Bizâncio o meu querido amigo e poeta Alexandre Nave. A sua participação é mais do que uma partilha numa amizade já antiga, é também a continuação de uma partilha que vimos fazendo, e que nos rendeu já longas leituras de poesia com outros amigos pelo corredor de noites acordadas.
Naturalmente que a sua participação vai trazer matizes pessoais e diferentes ao blogue; as suas áreas de interesse, leitura, especialização ou escrita o irão enriquecer; mas continuaremos como linha condutora uma reflexão sobre os temas mais importantes da civilização ocidental, a alteração, mutação e suspensão de certas ideias; tudo no tom lato de crónica e na ideia mestra de Bizâncio: no fim, demoradamente, de um tempo. sabemos todos que somos criadores numa Europa no fim da sua era - ou já depois do fim da sua era.
em todo o momento, porém, teremos sempre presente o gosto pela partilha e discussão de beleza e conhecimento que nos move e moveu.

Considerações sobre o estado do Estado, II

(Após uma leitura de Gomes Leal)

O Estado é, nos nossos dias, uma hidra composta de diversas cabecinhas diferentes. Vamos lá a ver se as conseguimos contar.

a) Podador – Ou, parafraseando Cesariny, poda (com) dor. Não se limita a cortar o excesso para – vamos lá – ser um Robin dos Bosques justo, munido de computadores quando o outro tinha flechas, e de um projecto enquanto o outro tinha uma aventura de justiceiro. Corta o excesso dos poucos, e não sabemos muito do excesso dos excessos. Fica-se chocado ao ver um mapa como o do destaque do “Público” de quarta-feira, dia 17, em que éramos o único país na Europa Ocidental com mais de 5% de população em nível de pobreza.
O Estado não se pode queixar de falta de informação, nem de falta de meios, nem de falta de legitimidade. A aliança europeia, o déficit, políticas comuns, deram-lhe o peso e a autoridade que em Portugal só poucas cabeças tiveram. Aliás, vergonha histórica sucessiva, nos períodos em que fomos uma nação e independente as asneir…