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A MESA DOS INVISÍVEIS #2

A MESA DOS INVISÍVEIS #2

Retratos, pessoais e transmissíveis, do que certos invisíveis me ensinaram.

JULIEN GREEN (1900-1998)
Depois do tempo e para além dos sonhos, tudo o que não chegou a ser existe num lugar denso e interior, mais dentro que a memória. Tão perto de Deus como do medo, aí «vivemos, nos movemos e existimos», como dizia São Paulo. Alguns descobridores do invisível, como Dostoievsky, Proust ou Freud lhe deram formas ou fórmulas ou mapas, mas esse continente denso continua a ocupar todo o espaço de ser.
Entre os gestos incompreendidos e uma natureza estranha mas muito entranhada, estão os romances e o journal (diário) de Julien Green. Este místico não via Deus de frente, nem temia o seu peso sobre os ombros – nada de culpa, nada de sombras. Apenas os tentáculos invisíveis, multiformes desse ilimítrofe oceano a tecer a natureza dos actos.
«La nuit, nous sommes des fous. Le rêve organise notre délire. Nous passons un tiers de notre vie à regarder ce monde irréel et il faut meubler le spectacle. Pour cela, nous avons à volonté le choix des inhibitions de la vie réelle. Alors, en avant crimes et amours imaginaires. Imaginaires ? Au réveil, on accroche des lambeaux d’une verité autre à un vague souvenir de la nuit, et on oublie. Sauf le romancier.» (in En avant par-dessus les tombes – Journal 1996-1997, pg. 59).

Este místico do homem, ou realista do inconsciente (o único real vivo, digo), permanentemente entre (franco-americano, homossexual católico, perseguido pelo mundo e pela luz que via dentro de si mesmo) deixou páginas de uma concentração desconhecida. Tão feitas de luz que a sua clareza corta:
«No espelho onde foi a seguir olhar-se tentou ver-se através dos olhos de Angus. Julgar Angus pareceu-lhe cómico e até odioso. Para julgar os gostos físicos de um homem era necessário ser puro, puro como um santo e justamente os santos não julgam, apenas tentam compreender. (...) Ninguém o achava belo e no entanto havia em si qualquer coisa que lhe escapava.
Olhou-se durante tanto tempo que teve uma sensação de vertigem.» (in Um Homem na sua noite, pg. 264)

Conheci-o depois de ter morrido. Havia muitos lugares onde, nessa dimensão múltipla, li quem é e como vive o grande desconhecido que mora dentro dos actos.
«Les choses que l’on regarde avec soin embellissent. Je regardais ce soir un miroir italien, et il s’est transformé sous mes yeux. Les miroirs sont magiques. Qui nos regarde de là-bas, dans les profundeurs de ce pays-là ?» (in En Avant…, pg. 193).

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