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a dupla palavra (aprendizagem da poesia)

iii. a cama
Não sei se, como leitores do texto vivo, pensamos nisto: que todos os dias nos preparamos, com abluções, outra roupa e uma miríade de gestos, para regressarmos à posição fetal, deitados em quatro tábuas de madeira, e nos entregarmos ao sono, esse grande desconhecido. É uma morte diária o que fazemos. Na cama, adormecendo, crescem não sabemos que países dentro do sono, alimenta-se a vida eterna de que precisa a vida terrena, trazem-se luzes e sombras para dentro do coração da sombra em que nos movemos. Que é claro que a poesia nasce aí, o Surrealismo o diz. Relembro apenas o surrealista francês que se deitava, pousando um letreiro na porta: «O poeta trabalha».
Da raiz bífida que a vida do inconsciente é, já Freud e todos os seus seguidores nos falaram. Infância permanente, lugar onde somos apenas um corpo entregue a um outro absoluto rio, assim é a vida secreta que vivemos no sono.
Na cama o outro corpo acontece as palavras. Torna as palavras lugares do íntimo movimentos de dois, uma língua que se concretiza. Escreve as palavras numa vida que une os dois corpos. Nada há de mais poético que o erótico, quando o movimento de inscrição e de impressão, de penetração, caro a Cristo, a Juan de la Cruz, a Sade e a Bataille, é a língua secreta de uma vida improferível que as palavras acontecem e que precisa do corpo onde encarnem. No erótico, o segredo que Deus fez no homem – a encarnação -, acontece com o mesmo mecanismo de sortilégio e de dupla palavra que acontece e cria.
Em ambos os momentos, o homem nasce-se. E eu não sei o que é a poesia senão o momento em que o homem encontra a plena medida de si mesmo, na dupla vida das palavras que lhe rasgam o sentido, essa sede que é a forma dos dias, o silêncio das palavras, a estrada que liga o berço e a cama, o ritmo secreto que ecoa no mais que músculo que é o coração.

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