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a dupla palavra (aprendizagem da poesia)

ii. o berço
Por isso, repito: a poesia só pode aprender-se no berço e na cama. No berço, quando ainda mais do espírito do que da carne, um recém-nascido encontra na música das palavras a língua secreta de onde veio. E, simultaneamente, a língua dupla do mundo. É aqui que se vai construir o seu imaginário. Hoje, por volta dos três anos (e falo do que conheço, os meus sobrinhos) as histórias de adormecer e os romances que eu ainda ouvi são substituídos por desenhos animados violentos de imaginários fracos, assentes na destruição e na transfiguração da personalidade, num dualismo agressivo que faz com que a violência contra os animais expressa no “atirei o pau ao gato/ mas o gato não morreu” pareça uma brincadeira.
No berço, embalado ao som do ventre, a poesia pode dizer o que é, o que circula como impermanência e o que vive como sangue. Forma a língua interior e a dupla vida da linguagem. Quanto mais crescente na proximidade desta dupla vida da linguagem, mais a personalidade se pode desenvolver dentro da esfera da vida interna e externa do homem.
No meu caso pessoal, cresci a ouvir a “Nau Catrineta”, as canções de embalar habituais (“Dorme, meu menino”), poemas de Pessanha, e os poemas da minha avó. Tenho repetido, sempre que me perguntam onde aprendi a poesia, que o fiz com ela, quando me apontava o rio Tejo que corre à frente da janela da sua casa e me dizia: “Para além do barco que vemos há um barco invisível; para além da terra, um porto invisível; e para além do mar o mar inteiro.” Embalado por versos, a poesia passou a ser o meu ventre materno na terra. Passei depois para “Os Lusíadas”, que a mesma Natércia me lia frente à mesma imensa praia do Restelo. Não percebia praticamente nada, mas a voz que os formava lendo, gravava no meu imaginário a altissonância de uma língua que falava de um mundo bem mais denso do que o que eu via.

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