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a dupla palavra (a aprendizagem da poesia)


i. os dois lugares da poesia
Como sujeito à poesia, e sujeito de todos os poemas do mundo (que cada leitor é), acredito que a poesia só pode aprender-se apenas em dois lugares: no berço e na cama.
O verso é a linguagem do corpo, deste corpo visível e matéria de tudo, e deste corpo simultaneamente silêncio e improferível, deste corpo em devir que os românticos alemães fizeram sujeito da aventura humana. O verso é a dupla palavra, a espada de dois gumes de que fala o livro dos Salmos, que pode dizer os sortilégios do início do mundo e a melodia encantatória da Grécia e da infância, nas cantigas de embalar. É a dupla palavra porque num verso a língua se multiplica na metáfora, se desdobra bífida trazendo o veneno do sentido e a clareza do sangue. Quando Humbolt proclama que «ao mesmo tempo que a linguagem tem um carácter interno, existe igualmente como um facto independente e externo que limita o homem», fala da vida interna do corpo e da vida eterna do corpo, aquela que se inicia no nascimento e se prolonga na morte, vida constante do homem. É Régio, o grande poeta que Vila do Conde viu nascer do seu seio que diz que «o homem morre de si mesmo»: é o lugar da sua morte, mas não é biologicamente o lugar do seu nascimento. A poesia, assim, oferece ao homem a dupla espada, com que pode matar ou nascer-se. Tudo o que existe é pela linguagem. Um renascimento espiritual, físico, mental, acontece pela linguagem, vida interna e vida externa do homem. Torna-se eterna quando passa o corpo celeste da palavra para o corpo do homem. A essa união chama-se texto, que é aquela zona branca da página onde cada ser humano é sujeito de um poema e se torna carne desse texto.

Como sujeito à poesia, como sujeito de todos os poemas do mundo, digo que aprendi a poesia quando um poema, integral nos seus silêncios, nas suas pausas, na distância de impossível das suas imagens, se cumpriu na minha vida. «O Jovem Mágico» de Mário Cesariny de Vasconcelos, «Lisbon Revisited (1923)» de Álvaro de Campos ou «Baptismo» de José Régio pertencem a esse estreito corpo que existiu na minha vida como anunciações, como espaços onde a carne do meu corpo, matéria do mundo, e a carne do devir encontraram na dupla palavra do verso o seu modo de nascer.

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