Avançar para o conteúdo principal

Considerações sobre o estado do Estado, I

De instituição criada para gerir a coisa pública em nome de todos, de instrumento readaptado pela Democracia para zelar pelo bem estar comum; de gestor comum e zelador de liberdades, o Estado é, neste momento em Portugal, o nosso pior inimigo.
Manifesta-se a controlar: de manhã à noite, omnipresente numa série de proibições com punição imediata – um totalitarismo de secretaria com milhares de espiões e tecnologia associada, dos parquímetros aos emails do Director-Geral dos Impostos sobre pagamentos de IVA e IRS. Manifesta-se a cobrar: retirando margens inaqualificáveis para não fazer o seu trabalho. Porque neste momento contribuímos para que o Estado não faça nada do seu trabalho: não apoia os idosos na sua fase final; não apoia os desempregados; não apoia os que iniciam a actividade profissional; persegue os profissionais livres; obstaculiza, em nome de uma ética da terceira idade para meia dúzia de ricos, a possibilidade dos reformados continuarem a trabalhar, muitas vezes para ajudar os filhos.
Todos os dias, mas todos os dias – desafio-os a verificarem – há notícia neste país de milhares de euros de dinheiro mal gerido, concursos inúteis que custaram quantias inquantificáveis, desvio de fundos, má gestão, criação de mais um tacho inacreditável e inútil, políticos ou gestores estaduais a serem aumentados ou dispensados com almofadas douradas. Enquanto isto, para nós, o Estado é cobrador, polícia, e esquecido quando necessitamos dele.
Estamos numa prisão: rodeados de proibidos por todos os lados. Faz lembrar a utilidade do estado de Luís XIV, «L’État c’est moi», que deixou a França numa das suas piores crises económicas de sempre. Para fazer guerras e Versailles. E o nosso capataz estadual ainda mantém a ideia de fazer um Versailles aéreo, curiosamente à mesma distância da capital Lisboa que Versailles o é de Paris. Para quê?
É com Estados neste estado que nascem as revoluções.

Comentários

"Marginais deste mundo, uni-vos!", na natural união divergente de dua margens de um rio a desaguar.

Um abraço PSL

Cordialmente

Mário Lisboa Duarte
(tentáculo marginal)

www.margemdarte.blogspot.com
margemdarte@gmail.com
Pedro Sena-Lino disse…
obrigado pelo teu comentário. um abraço, PSL

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…