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"as mentiras da Arte"

Uma selecção de uma entrevista de um cantor rock português dizia qualquer coisa como isto: «A inspiração é uma das maiores mentiras da Arte».
Fiquei curioso por saber quais eram as outras mentiras da Arte, as maiores e também as menores. aliás, realmente, fiquei mergulhado no mais intenso fascínio: imaginei já que, à semelhança das boas e antigas contendas bizantinas (e cristãs) se pudesse já imaginar as sete pequenas mentiras da Arte e as sete grandes mentiras da Arte, veniais e mortais, sem obras de misericórdia incluídas.
gerações e gerações de artistas seriam distinguidos uns dos outros pelo seu domínio desta cartilha exemplar de catorze pontos, novos monges de uma rectidão artística inbeliscável.

Mas não: só mais uma vítima, a espancada, cuspida, abusada de sempre: a inspiração.
Devo dizer da minha parte, ainda para mais como professor de escrita criativa (ou literary coacher, como afirma o meu amigo Ludovic Heyraud) que concordo que o trabalho artístico tem muito mais de trabalho, silêncio, procura e até sofrimento do que de sussurros directos do espírito. mas é igualmente verdade que tive já momentos, depois do trabalho, silêncio, procura e sofrimento, em que alguma coisa de mais remoto, fundo e poderoso foi capaz de plasmar no papel ideias mais fortes e largas do que eu. nenhum criador é incapaz de dizer que isso nunca lhe terá acontecido.
a questão é mais velha que Platão e deu inclusivamente origem a um célebre estudo do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, «poesia e oficina», em que o poeta de A Escola das Facas defende o trabalho oficinal e rebate a ideia romântica de inspiração.
Há uma raiz sobrenatural e antiga na ideia de inspiração; o romantismo recuperou-a com o mito do génio. Pessoa manteve-o, inclusivamente, com o célebre mito da invenção torrencial de O Guardador de Rebanhos, teoricamente escritos de uma vez só, e de pé (!) numa cómoda do seu quarto na Rua Coelho da Rocha (mas estudos aos vários papeis e canetas utilizados provaram o contrário). o pós-modernismo veio ajudar às mudanças na sua lógica de revisitação, reescrita e intertexto; alteração dos processos artísticos, que veio com o fim da literatura como arte central da cultura, com a sua passagem de centralidade para a música, e depois para o cinema e agora (também) para a imagem televisiva e virtual alteraram a ideia de criação soprada pelo céu ou por outras potências humanas e não conscientes (mas os próprios pais da psicologia (e penso sobretudo em Jung) não descartavam uma deriva das vozes não conscientes no processo criativo). essa mediatização da arte e da criação, vieram os novos meios de comunicação tornar muitas vezes colectiva (como os grupos de argumentistas, responsáveis pelas mais geniais séries que conhecemos).
donde que: a inspiração pode não ser (já ou nunca) a força motriz de um criador. a sua experiência, conhecimento e técnica continuam a ser mais fundamentais que essa - mas também já mais e mais postas em causa, inclusivamente… mas chamá-la “grande mentira da arte” é só sinónimo da cegueira de omnipotência do nosso tempo, em que o homem consciente se sente capaz de rigorosamente tudo, desligando fios subterrâneos ou espaciais. grandes mentiras se falam quando se falam nas grandes mentiras na arte. e imaginemos as pequenas (mentiras)…

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