Avançar para o conteúdo principal

todos os princípios começam no fim



não ser uma coisa nem outra, mas um intermédio (Sá-Carneiro), um intermezzo. glorioso ou falho.


o que importa é passar, com quanta mais luz.
começar, sempre já no fim. até porque um começo nunca tem fim, é sempre o invisível adiante.


tudo isto por causa de bizâncio; devoro há dias A Short Story of Byzantium, de John Julius Norwich. não sendo um livro de História pura e dura, é correctíssimo, inteligente e eficazmente contado. aquela excrescência histórica, ou degenerescência quase cancerígena (para continuar nas palavras longas de tom bizantino), como ao longo dos anos a pensei - e pelos vistos a pensámos, já que até Edward Gibbon, no seu Decline and Fall of the Roman Empire a considerava assim: uma espécie de barco de depravados, cadáver adiado.


um princípio que começou com um imperador Constantino e acabou com outro - como o do Ocidente "começou" com Rómulo e acabou com Rómulo Augusto. ou como este último acabou com as invasões, mas antes de mais com uma nova ordem que o cristianismo trouxe, e o bizantino com um novo jogo de poder no Oriente que o Islão trouxe.

mas nós persistimos: das ruínas haverá algo, uma partícula de novo. [estranha, a marcha do centro da História: parece estranhamente caminhar para Ocidente: da Mesopotâmia para o Egipto, do Egipto para a Grécia, de Grécia para Roma, de Roma para a Europa Ocidental, daí para a América, da América para a Ásia.]
escrevo por isso de bizâncio: porque ainda há tantas ruínas para interpretar; porque os sinais não são geracionais, são os traços de mentalidades mais profundas, de idades mais gravadas nos comportamentos de cada um e de todos. temos mais de Bizâncio do que de qualquer passado recente.


escrevo por isso de bizâncio: sou um cidadão de um continente à deriva, que ainda não aceitou que acabou a sua idade. que não passamos do que foi a Grécia para os Romanos (como nota Eduardo Lourenço): um sítio culturalmente riquíssimo, mas melhor para visitas do que para trazer alguma coisa de novo.

Bizâncio não foi uma degenerescência: foi muito do nosso tempo de hoje. uma ponte entre o passado e um certo futuro do passado que ainda trazemos nos olhos, nós ocidentais.
é daí que escrevo.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…