Avançar para o conteúdo principal

OS LAÇOS, OS IMPOSTOS E A MORTE


[a pedido, publico no blogue o texto de apresentação do meu último livro, e primeiro de contos, museu de história sobrenatural, lido em Lisboa, 26 de Setembro e no Porto, 27 de Setembro]


cheguei à conclusão de que tenho uma ideia errada a meu respeito. não que ache que tenho dois metros e a barriga dos trinta a praticamente não se notar; não que ache que não me podem acontecer coisas fantásticas como um singapurense controlar o meu voice mail à distância e me mandar mensagens sobre o tempo em Rabo de Peixe. infelizmente não é nada disso, [já que a minha geração já viu coisas bem piores como ver o Estado tornar-se no maior perseguidor do cidadão, e ser notícia de primeira página por dias inteiros a vida do novo Director-Geral dos Impostos.]
mas fazia uma ideia minha, desde há anos, de que eu seria apenas poeta (se o chego a ser, mas isso é outra conversa). pensei sempre que os mundos mais tecidos e arquitectónicos da ficção fossem negados a um rapaz que cresceu, entre terços e José Régio, numa adolescência de palavras pesadas. tinha tanta certeza disso que o meu próprio corpo parecia rejeitar a prosa como uma ida à repartição de finanças. a minha memória visual, por exemplo, era capaz de recordar-se, em exames na Faculdade, de poemas inteiros, visualizar os versos e a mancha gráfica de páginas seguidas – mas era incapaz de lembrar-se de uma cena só, do nome das personagens, às vezes até do assunto, dos romances lidos uma ou duas semanas antes. isso para mim era a certeza de que eu era tão pouco prosador que me habituei.
depois vieram muitas coisas, a morte também [queria dizer a dissolução de tantos laços, mas é mais como se tornaram mais laços, mais invisíveis], e também os impostos, esse calendário ritual que nos ensina a estar no mundo e a lembrar-nos que existimos. lembro-me sempre com ironia de quando Cristo apanhou uma moeda na boca de um peixe disse logo “A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”, mas acabaram por ser as moedas de César nas mãos dos que eram de Deus que o tramaram. os impostos, pois claro, a dissolução dos laços, a morte: tudo isso deitou sobre mim uma espécie de temor sobre a poesia, um temor maravilhoso e orgânico, como dedos ou pulmões. sempre acreditei que os poemas são explosões: rebentam e com isso acontecem-nos, fazem despoletar em nós a vida e o seu movimento, que é a morte (a morte é quem faz a vida avançar). muitos poemas lidos tomaram conta de mim, do adolescente de palavras pesadas ao jovem adulto que acordava com o rumor de uma palavra permanentemente gravada dentro do sono. muitos poemas lidos aconteceram-me, verso a verso: repetiram com precisão o que acontecera comigo. e a poesia, que durante um ano exigiu de mim um trabalho de depuração de versos até não resistir mais, no meu último livro, livro de albas - que se existe se deve apenas ao Alexandre Nave, que me impediu de o destruir várias vezes -, essa mesma poesia aconteceu-me, tornando aquele livro realidade na minha vida.
lembro-me sempre do meu grande amigo Thomas, que está há anos no Brasil e é um gestor, lírico mas gestor, quando viu finalmente o livro de albas de que tanto lhe falava por email: «tanto sofrimento e só trinta páginas?»
mas vieram tantas coisas depois disso, sobretudo o choque que é para um poeta a sua poesia acontecer-lhe, verso a verso; e os laços, e os impostos, e a morte. a poesia, num vago temor, realidade e orgânico, tornou-se uma coisa alta e perigosa, druídica. os seus passos deixaram-me. acreditei que nunca era eu que a escrevia, mas ela que escolhia acontecimentos e pessoas para se escrever através dos poetas – e assim foi.

nesse intervalo escrevi pela segunda vez a minha autobiografia. e ao escrever essa escada para dentro e para a luz, me apercebi como tanta coisa aconteceu em mim. e depois vieram as aulas, e as histórias daqueles que escrevem na Companhia do Eu, e qualquer coisa serenamente começou a activar-se. e o invisível, todas as histórias que me aconteceram e que eu não podia acreditar que tivessem acontecido apenas em trinta anos e a mim. a autobiografia é um espelho em todas as direcções: mostra a quantidade incrível do narrado: os milhares de volumes de actos e pensamentos que cruzam a nossa vida.
posso garantir-vos que, apesar de dois pais no mais fundo humanamente religiosos, e de uma avó quase mais espiritual que real, se há esta tensão para o invisível é porque me aconteceu, não porque o pedi. aos treze anos, em plena crise, numa missa que me parecia um funeral, disse bem claro a Deus dentro de mim: «ou te fazes aparecer na minha vida, ou podes bem crer que te volto as costas». fui a Jerusalém nesse ano, sozinho num grupo, e ele trouxe-me de volta. também não acreditava nas presenças dos que não se vêem e caminham connosco, e muitos acontecimentos me mostraram a realidade disto.
tudo para vos dizer: eu tinha uma ideia errada a meu respeito. há dias, ao arrumar um velho computador, descobri que a primeira coisa séria que escrevi na adolescência não foi poesia, mas um romance, a história de um país imaginário. a história, com mapas, dinastias, acontecimentos políticos, amorosos e religiosos (mas todavia sem impostos). eu, um poeta todo o tempo.
tudo para vos dizer: pensei que não tinha nada para contar. pois o invisível formou-se, quis ser contado. a minha obsessão, percebi-o há algum tempo, é que tudo o que é invisível nos marca mais do que o visível. uma vez o meu sobrinho Rodrigo, aos três anos, me perguntou onde é que estavam as pessoas que tinham morrido. eu disse, claro, que estavam no céu.
ah, e então porque é que não caem com a chuva?
pois, Rodrigo, porque estão mesmo lá em cima
e se eu for de avião posso vê-los?
e lá tive de lhe dizer que as coisas mais importantes não se vêem mas fazem parte de nós: ele também não via os próprios pensamentos mas podia ouvi-los dentro dele; também não via o fim do mar, mas sabia que estava lá; ele também não via o futuro e sabia que ia existir. o que é mais parte de nós do que nós. é dessa parte de nós mais nós que nós, mais que os laços, os impostos ou a morte, que estes contos quiseram falar.
tenho pavor e pânico de filmes de terror; não sou grande leitor de literatura gótica, e de Edgar Allan Poe a única coisa a que consegui sobreviver sem uma noite inteira de pesadelos foi o Corvo. mas escrevi um livro de contos sobre o sobrenatural. porquê? não sei.
das duas uma: ou neste momento é mais importante falar dos fantasmas reais (os outros andam aí, e também se chamam impostos), do que não se vê e se constrói connosco; ou tenho mesmo uma ideia errada a meu respeito.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crôuvicas de Bruxelas: O tempo belga

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

O que é o progresso?, parte I

Vivemos melhor do que há cem anos? Do que há cinquenta, do que há vinte?
A resposta pode ser mensurável de diversos ângulos: se temos mais conforto físico, com casas mais confortáveis e tecnologia que nos ajuda a criar bem-estar, e tecnologia que nos ajuda a poupar tempo no dia-a-dia. Se temos transportes rápidos que nos permitem gozar melhor o tempo e aproveitá-lo completamente. Se debelámos doenças, e se temos um sistema de saúde que permite enfrentá-las melhor e com mais protecção. Penso que ninguém se oporia que nos últimos cinquenta, vinte, dez anos, temos melhorado neste aspecto. Que atingimos progresso. Mas depois se formos olhar o que pode ser viver melhor, o que é progresso, em outros ângulos, a resposta pode não ser a mesma. Temos mais progresso social no mundo? Um filho de um homem desempregado, analfabeto, que vive numa casa de zinco nos arrabaldes de Nairobi, da Cidade do México ou de Kuala Lumpur, ou até de Boston ou Londres, tem possibilidades de fazer um curso univers…