Avançar para o conteúdo principal

A MESA DOS INVISÍVEIS #1



[A MESA DOS INVISÍVEIS: Retratos, pessoais e transmissíveis, do que certos seres já não visíveis me ensinaram.]

LEOPOLD STOKOWSKI (1882-1977)
Este era o homem que dizia que não dirigia orquestras – que acompanhava cada músico no seu solo, que seguia a voz de cada impressão profunda que a música tinha feito com os seus instrumentos. Por isso talvez dirigisse sem batuta, como tocava órgão com os dedos mais invisíveis, como se dirigisse o próprio coro do paraíso diante de si.
Este famoso organista e maestro nunca foi um homem de consensos; e isso sobretudo porque, num momento onde a figura romântica do maestro se associava a autoridade, força e ímpeto, visão condutora, Stokowski preferiu sempre para si o papel de mínimo, de menestrel mais do que de condutor (mas um menestrel que se fizesse notar, sem dúvida); e por isso as fotografias que dele temos, como esta que a EMI reproduziu na capa deste álbum, mostre alguém que dirigia com as pontas dos dedos, como se a orquestra fosse um imenso órgão. E sobretudo a sua paixão pelas transcrições, por ele próprio realizadas, de excertos famosos, com Bach no centro.
Num disco recente que a EMI reeditou, num registo exuberante e monumental de presença, traz-nos transcrições de famosas peças de Johann Sebastian Bach (1685-1750), da famosa Toccata e Fuga BWV 565 à Sinfonia da Oratória de Natal, em treze faixas de uma translucidez perturbadora. Não é desvirtuar Bach, como foi sempre acusado, mas fazê-lo falar com uma atenção ao detalhe, à vida mínima de cada pormenor, com uma dimensão insuperável: talvez esse excesso de dimensão perturbe o ambiente “chambriste” original de algumas das peças; mas há alguma coisa do eco da música de Bach no mais íntimo do coração do tempo, no eco de séculos e da lembrança, que estas transcrições fazem. Como se ouvíssemos longe, tão densamente perto, o eco de um momento raro, onde da solidão da composição ao recôndito de nós reverberam qualquer coisa de Deus.
É qualquer coisa de Deus que oiço nestas transcrições de Stokowski. A primeira vez que as ouvi, teria treze anos. No fundo de uma igreja despojada nas costas do Reno, Deus parecia fazer-me entrar no seu movimento de diálogo consigo. Como uma linguagem muito discreta e infinitamente clara, que ecoava no meu coração como o tamanho real do mistério.
Aprendi com as mãos silenciosas de Stokowski um vislumbre da forma como o invisível se faz carne, a cada momento, no mais dentro do espírito.

Comentários

etanol disse…
É o dedilhar, a direcção antiga sem batuta, como se dirigia as vozes, por exemplo no canto gergoriano. Dirigir a dedilhar uma orquestra como se os intrumentos fossem vozes, fossem corpos humanos - e são de facto um prolongamento do corpo dos músicos - é genial!
Maria João

Mensagens populares deste blogue

Até sempre

Caros leitores: não é uma decisão facilitista, não é uma decisão repentista. É uma decisão longa que vem de um lugar certeiro: eu não sei ser do meu tempo como o meu tempo quer que eu seja.

Há algo em mim fundamentalmente avesso à exposição pública, e mais, contra a rapidez e a omnipresença do mundo de hoje. Sabia isso antes, de longos passados, soube isso de novo quando passei cinco anos em manuscritos, reforcei absolutamente isso quando apresentei o meu romance despaís, sei isso hoje melhor, por penas e reflexão.

Há muito que vinha pensando nisto, e a realidade parecia confirmá-lo. Mas fui educado pensando que a progressão, e a luta contra obstáculos e dificuldades na minha própria personalidade é um progresso. O progresso do mundo que eu posso e devo começar a fazer, se quero criar progresso no mundo. Não seria eu que seria tímido, e com isso encostado à minha própria facilidade? Tentei combatê-lo, portanto. Da luta interior fazer escadas.

Percebo hoje que o meu caminho é outro. U…

O regresso regressa

O regresso do regresso: não apenas voltar, não apenas algo ou alguém que faz um caminho de volta, casa que se encontra não tanto como se deixou, assim tocada pelo coração duplo da memória mas também da diferença; não apenas o caminho de volta, mas uma viagem mais ampla. Como que, regressando, está a acontecer uma outra viagem para além do retorno: que tudo que partiu pode voltar de novo, de uma forma dupla. Não apenas voltar aonde se esteve, ou receber de volta o que se perdeu: mas com a emoção múltipla e desdobrante da descoberta. Talvez seja dos 40, talvez seja de ser emigrante, talvez seja por acreditar e acontecer-me em cada Dezembro que um menino nasça directamente onde pensava que a esperança tinha morrido. Mas agradeço esta descoberta que não esperava da vida.
O "Crónicas de Bizâncio" estará de volta, pelo menos durante 2018. Sempre à Quarta-feira e ao Domingo, um texto mais longo e outro mais curto. Como aconteceu comigo, espero que regressem a estes regressos.

Dezassete álbuns de 2017, parte I

Não é por nostalgia ou por me recusar à tecnologia que continuo a comprar CDs. Os motivos são inúmeros e merecem um outro "post". Mas para já, um argumento único, envelope desta selecção: não são uma realidade virtual recebida num écran, em que qualquer mecanismo tecnológico pode modificar as coordenadas do seu tempo; são saídos, impressos, gravados num objecto e distribuídos, são como a poesia, que é arte de fazer, mas também de concretizar o que não existia antes (como dizia Pierre-Jean Jouve).
Partilho dezassete albuns: os oito primeiros, saídos em 2017, reedições ou novidades  - feitos neste tempo por artistas de agora que procuram as raizes do antigo com as marcas do hoje. E estão aqui porque me marcaram neste tempo e serão por isso marcas do presente no futuro.
I. Last Leaf, The Danish String Quartet (ECM) Um som tão distante e antigo como uma floresta celta, onde o nosso sangue correu, ardeu e se levantou. Uma recordação de um lugar perdido bem longe no co…