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identidade & ultimato



ao ver a última "sequela" da série "Bourne Identity" (e sendo que não vi as anteriores), para além das perseguições e tensão que deixa Bond como uma relíquia elegante e neo-clássica, um tema explosivo e actual surge: o da identidade.


Bourne é o segundo herói actual onde os limites da missão se confundem com o da sua identidade (sendo Jack Bauer o outro, em tom e natureza muito diferente). não se trata já da "máscara", da identidade falsa com um propósito, com que o jogo dos agentes secretos, pelo menos na sua representação literária ou cinematográfica, sempre se rodeou; mas da sucessão de máscaras tal, que a própria identidade é necessariamente rasurada. é curioso que seja igualmente o Matt Damon de "The Talented Mr Ripley" que o represente. se em Ripley a máscara tomava a forma do rosto, em Bourne é a ausência do rosto que constrói a personagem. avança pelo filme como uma imensa pergunta, desafiando tudo à sua passagem.


a maior conquista interior para a Humanidade que o Ocidente trouxe, ao longo de um percurso que começou com o fim do Império Romano, e que começou na Filosofia para depois passar para a Arte e ter o seu "big bang" no projecto modernista, foi o conceito de identidade.


e é terrível e irónico que séculos de construção da autonomia do sujeito perante qualquer tipo de ideia, religião ou princípio sejam tão atacados como no momento em que vivemos.


nesse aspecto, e dentro do cenário das missões especiais cegamente controladas pelas agências americanas, Bourne é a representação de uma luta que o Ocidente devia estar mais conscientemente a travar consigo próprio: será ainda a identidade um bem? ou mais, um valor, para o Ocidente? ou outras coisas estarão acima disso?


em última análise, o choque do 11 de Setembro é isso mesmo: entre um fanatismo que usa os seus soldados como carne para canhão, para quem a identidade é sair da ideia de criatura (criada e respeitante a um Deus controlador e negativo), e um Ocidente que pensa o contrário, e é o símbolo do contrário.


a questão é se o não perdemos já.

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