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contar é mais natural que existir


Desde o princípio do mundo (quando foi...? alguém contou) que contar se tornou e é mais natural do que existir. Situar o mundo no mundo, o visível no invisível, o interior no exterior: as raízes, essa longa forma que começa nas mãos e nos pés para se perpetuar na própria ansiedade do dentro. Donde vim, pergunta permanente e inextinguível. Donde nasceu o sangue, como se formaram as paisagens da alma, os sítios percorridos pelo coração.
Contar tornou-se, desde os nossos mais infinitos antepassados, tão necessário como uma pergunta está na respiração: respiramos o mundo para dentro de nós. Assim nos perguntámos e perguntamos, tentando aclarar, na névoa da desmatéria, quem e onde somos.
Mais natural que existir: porque os que foram antes, os sítios que existem e se impõem, antigos, antes do nosso próprio corpo e dos rios que o correm, só existem contados: dispostos em bruma concretizada por outros, para que cheguem a nós.
Tão antigos como as cordilheiras, os nomes dos astros e as disposições dos países são as nossas histórias do início: as cosmogonias, que, espantosamente, foram das primeiras coisas a serem escritas para serem preservadas (o mais antigo texto é o Gilgamesh, do século XX AC). Ou não tão espantosamente: porque o que fazemos, na arte de contar, é procurar o início no hoje, as raízes do presente - entre o que é invisível hoje.

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