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Mensagens

A mostrar mensagens de Setembro, 2007

OS LAÇOS, OS IMPOSTOS E A MORTE

[a pedido, publico no blogue o texto de apresentação do meu último livro, e primeiro de contos, museu de história sobrenatural, lido em Lisboa, 26 de Setembro e no Porto, 27 de Setembro]


cheguei à conclusão de que tenho uma ideia errada a meu respeito. não que ache que tenho dois metros e a barriga dos trinta a praticamente não se notar; não que ache que não me podem acontecer coisas fantásticas como um singapurense controlar o meu voice mail à distância e me mandar mensagens sobre o tempo em Rabo de Peixe. infelizmente não é nada disso, [já que a minha geração já viu coisas bem piores como ver o Estado tornar-se no maior perseguidor do cidadão, e ser notícia de primeira página por dias inteiros a vida do novo Director-Geral dos Impostos.]
mas fazia uma ideia minha, desde há anos, de que eu seria apenas poeta (se o chego a ser, mas isso é outra conversa). pensei sempre que os mundos mais tecidos e arquitectónicos da ficção fossem negados a um rapaz que cresceu, entre terços e José Régio…

contar é mais natural que existir

Desde o princípio do mundo (quando foi...? alguém contou) que contar se tornou e é mais natural do que existir. Situar o mundo no mundo, o visível no invisível, o interior no exterior: as raízes, essa longa forma que começa nas mãos e nos pés para se perpetuar na própria ansiedade do dentro. Donde vim, pergunta permanente e inextinguível. Donde nasceu o sangue, como se formaram as paisagens da alma, os sítios percorridos pelo coração.
Contar tornou-se, desde os nossos mais infinitos antepassados, tão necessário como uma pergunta está na respiração: respiramos o mundo para dentro de nós. Assim nos perguntámos e perguntamos, tentando aclarar, na névoa da desmatéria, quem e onde somos.
Mais natural que existir: porque os que foram antes, os sítios que existem e se impõem, antigos, antes do nosso próprio corpo e dos rios que o correm, só existem contados: dispostos em bruma concretizada por outros, para que cheguem a nós.
Tão antigos como as cordilheiras, os nomes dos astros e as disposições…

identidade & ultimato

ao ver a última "sequela" da série "Bourne Identity" (e sendo que não vi as anteriores), para além das perseguições e tensão que deixa Bond como uma relíquia elegante e neo-clássica, um tema explosivo e actual surge: o da identidade.

Bourne é o segundo herói actual onde os limites da missão se confundem com o da sua identidade (sendo Jack Bauer o outro, em tom e natureza muito diferente). não se trata já da "máscara", da identidade falsa com um propósito, com que o jogo dos agentes secretos, pelo menos na sua representação literária ou cinematográfica, sempre se rodeou; mas da sucessão de máscaras tal, que a própria identidade é necessariamente rasurada. é curioso que seja igualmente o Matt Damon de "The Talented Mr Ripley" que o represente. se em Ripley a máscara tomava a forma do rosto, em Bourne é a ausência do rosto que constrói a personagem. avança pelo filme como uma imensa pergunta, desafiando tudo à sua passagem.

a maior conquista interio…

A MESA DOS INVISÍVEIS #1

[A MESA DOS INVISÍVEIS: Retratos, pessoais e transmissíveis, do que certos seres já não visíveis me ensinaram.]

LEOPOLD STOKOWSKI (1882-1977)
Este era o homem que dizia que não dirigia orquestras – que acompanhava cada músico no seu solo, que seguia a voz de cada impressão profunda que a música tinha feito com os seus instrumentos. Por isso talvez dirigisse sem batuta, como tocava órgão com os dedos mais invisíveis, como se dirigisse o próprio coro do paraíso diante de si.
Este famoso organista e maestro nunca foi um homem de consensos; e isso sobretudo porque, num momento onde a figura romântica do maestro se associava a autoridade, força e ímpeto, visão condutora, Stokowski preferiu sempre para si o papel de mínimo, de menestrel mais do que de condutor (mas um menestrel que se fizesse notar, sem dúvida); e por isso as fotografias que dele temos, como esta que a EMI reproduziu na capa deste álbum, mostre alguém que dirigia com as pontas dos dedos, como se a orquestra fosse um imenso órg…

porquê um blogue?

pois, se calhar é uma bizantinice: há três, cinco anos, quando estavam na moda, nunca tive vontade de fazer um blogue. ao longo deste tempo, a mesma coisa. talvez porque o formato de diário pessoal, que em tantos li, me irritasse.
serão por isso crónicas (e sempre crónicas), de um escritor que sou, no tempo em que sou.
gostaria que este fosse um diário interior de alguém que tenta interpretar não só o hoje, mas o que está mais longe e antigo no hoje. penso que, no fim de tudo, é essa a primeira missão de um criador.

todos os princípios começam no fim

não ser uma coisa nem outra, mas um intermédio (Sá-Carneiro), um intermezzo. glorioso ou falho.

o que importa é passar, com quanta mais luz.
começar, sempre já no fim. até porque um começo nunca tem fim, é sempre o invisível adiante.

tudo isto por causa de bizâncio; devoro há dias A Short Story of Byzantium, de John Julius Norwich. não sendo um livro de História pura e dura, é correctíssimo, inteligente e eficazmente contado. aquela excrescência histórica, ou degenerescência quase cancerígena (para continuar nas palavras longas de tom bizantino), como ao longo dos anos a pensei - e pelos vistos a pensámos, já que até Edward Gibbon, no seu Decline and Fall of the Roman Empire a considerava assim: uma espécie de barco de depravados, cadáver adiado.

um princípio que começou com um imperador Constantino e acabou com outro - como o do Ocidente "começou" com Rómulo e acabou com Rómulo Augusto. ou como este último acabou com as invasões, mas antes de mais com uma nova ordem que o crist…