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Mensagens

A mostrar mensagens de 2007

NADA MUDA NO QUE MUDA

Porque teremos de encontrar um eixo onde tudo chega ao fim, e começa de novo? Porque teremos que desenhar um micro-cosmos, pseudamente controlado, em que o tempo parece depender do nosso próprio desenho do seu arco?
“O Ano Mil” de Georges Duby trabalha os medos vindos da própria programação do tempo: "Para o cristianismo, a História possui uma orientação. O mundo tem uma idade. Foi criado por Deus numa certa época. (…) Alguns textos, os da Sagrada Escritura, permitem o cálculo das datas, a da criação, a da encarnação, logo o discernimento dos ritmos da História. Estes mesmos tempos- os que utiliza Abbon-, os Evangelhos, o Apocalipse anunciam que um dia virá o fim do mundo. Ver-se-á surgir o Anticristo que seduzirá os povos da terra. Depois o céu abrir-se-á para o regresso do Cristo em glória, vindo julgar os vivos e os mortos.»
Tudo isto nasceu de uma contagem do homem a partir de um facto. Independentemente da fé, uma civilização não pode ver o seu fim: mas dramaticamente precisa…

E O ROSTO DESDOBRA-SE

Quando era criança, fascinei-me durante meses com a ideia de Jano. O deus romano de duas caras, que olhava para o ano passado e para o ano futuro. Imaginava terrivelmente quando desaparecia o rosto do ano passado e se substituía o rosto novo por um antigo: quando isso acontecia. No eixo do ano, no preciso último dia de Junho, procurava evidências que me concretizassem a ideia que nesse dia um rosto velho caía, substituído por outro; e nesse mesmo dia o rosto novo tornava-se quebrado pelos anos, começando a surgir outro. Depois comecei a pensar que no eixo do sol, no centro do ano, no Verão, um rosto solar olhava-nos.
O conto de Dickens, com os fantasmas dos Natais anteriores, cimentou a minha ideia de um tempo que não conhece divisões.
Infelizmente o nosso tempo actual não é o tempo dos romanos. Somos conduzidos por ele, por um tempo hiper-contactável, que é sistemática e parafernalicamente regulado por entidades exteriores que roubam a noção do tempo de si. O tempo de si, o tempo para…

Perguntas de um católico sobre uma época comercial chamada Natal, III

Por último: mesmo quando fui neutramente agnóstico, e todos os mistérios me pareceram invenções bem oleadas, o Natal não deixou de sempre me inquietar. Não fui o único: se percorrermos qualquer antologia de poesia sobre o Natal, da última organizada por Graça Moura (Natal, Natais) ou qualquer estrangeira, vemos que o tema foi glosado e pensado por inúmeros poetas. E isso tem muitíssimo a ver com a mais inesperada, rasgada surpresa de uma criança filha de Deus nascida em palhas.
Se um coro de anjos, prodígios maravilhosos, acontecimentos geológicos incríveis, tremores de terra e relâmpagos desfigurando o céu tivessem anunciado ao mundo inteiro o nascimento de Cristo, todos seríamos forçados a acreditar. Preferiu antes ser uma criança anónima nascida num lugar de empréstimo e de passagem.
Estrangeiro da sua própria natureza.

Perguntas de um católico sobre uma época comercial chamada Natal, II

Alguns sectores “conservadores” (poderia chamar-lhes bárbaros, mas fiquemos pelas aspas) nos Estados Unidos e um pouco por aí, assentam toda a simbólica da criança-Deus como uma mensagem divina anti-aborto. Esta linha de pensamento parece-me que periga muito a consideração religiosa do Natal. A época, devorada pelo comércio como a sua época mais fiável e produtiva (como já nem os saldos são), afasta-se do seu significado não apenas por esta devoração: mas porque este tipo de argumentação cola-se à simbólica. E acaba por colonizá-la.
Qualquer civilização que não se encontre na sua simbólica (seja ela qual fôr) está decadente. O Ocidente, assente no cristianismo como raiz, não trabalha simbolicamente com liberdade a sua matriz identitária. Não entendemos que os símbolos do cristianismo são para ser revisitados, perguntados, multifigurados. Qualquer revisão, qualquer revisitação é mal vista. Separámos Igreja de progresso científico há centenas de anos, mas ainda não temos liberdade criati…

Perguntas de um católico sobre uma época comercial chamada Natal, I

não tenho o hábito de assinar nada ou defender nada do ponto de vista do católico que sou. porque creio que a minha fé é uma relação pessoal que deve, sem ser expressa por palavras, alterar em actos a minha vida e a dos outros. o desafio de o conseguir ou não, é comigo. as declarações (as anunciações) são pessoais, não impositivas: é um dos erros frequentes que séculos de evangelização fizeram.
mas chegando ao Natal, ao tema que mais move carteiras no Ocidente sob um pretexto religioso, e que centraliza ambientes, atitudes e expectativas, sempre tive uma curiosidade inquieta, perguntada em mim muitas vezes, sobre o sentido de tudo isto. pergunto-me muitas vezes o que acaba por ser o Natal.
encontro-me muito mais na ressurreição: na certeza de que um incómodo condenado à morte por oligarcas judeus (mas com a máfia italiana imperial a fazer o trabalho) transcendeu todos os dias e actos da sua vida e venceu a morte. essa é a minha esperança: que tudo passe à vida da eternidade, cada segund…

«Same people, different books»

A frase é de um velho inspector da CIA, que ocupa a cena nos dois últimos episódios da season II de The Closer. The Closer é das melhores séries actuais, com enredos conseguidíssimos, reveladores da situação e realidade sócio-cultural de Los Angeles, com personagens coladas à vida, sem sofisticações, e com a crueza e a burocracia de qualquer esquadra ocidental. The Closer e a sua protagonista, Brenda Lee Johnson (Kyra Sedwick) merecem um outro post, mas agora a frase. O inspector que a proferiu contava a Brenda que durante cinquenta anos de carreira ouvira generais nazis a recitarem “Mein Kampf” enquanto atiravam judeus para câmaras de gás; tiros na nuca enquanto KGBs sussurravam Marx e Engels; e agora loucos a assassinarem inocentes adulterando Maomé. As mesmas pessoas, livros diferentes.
Os livros que estruturam a civilização ocidental vieram do Oriente. O Antigo Testamento, no seu encruzilhar emaranhado de mitos sumérios, babilónicos, egípcios reescritos e revistos, na própria natur…

Geometria dos (im)possíveis

« Perdemos o centro ». Também acho. E não só. Também perdemos o norte e os sentidos. Um exemplo: Portugal na semana passada inventou o “HIV dos cozinheiros” que tem a grande singularidade de ser transmissível pelo suor. Mas não faz mal, já que Scolari se mostra satisfeito com o sorteio da fase de qualificação para o próximo campeonato do mundo de futebol. Em França, ao mesmo tempo, o Presidente Sarkozy viaja para China concretizando contratos comerciais de vinte mil milhões de euros...deixando em casa a Secretária de Estado dos Direitos Humanos...Cada dia novo parece mais uma promessa da piorítica -a política do pior-e da mashpotatização da nossa cultura, como diz o cantor francês Jean-Louis Murat. “Perdemos o centro”. Mas acho que não há mais centros. Somos agora, pelo contrário, um anel numa miríade de anéis despolarizados, descentradose des-saturnizados. E estes anéis todos teriam, numa geometria pós-espacial e surreal, que defrontar o astro à volta do qual giram sem fim, para se e…

DORES DE DESCENTRAMENTO

O que se passa na Europa Ocidental nestes anos, com todas as questões de deslocalizações de empresas, de pesados déficits devido a pesados Estados-Providência – e sobretudo, o que se passa com o Estado que se tornou cobrador em vez de Providência, tem a ver com o nosso descentramento. Porque deixámos de ser o centro, pagamos esse custo. Não é apenas em termos simbólicos, como víamos no post anterior; mas também e antes de mais em termos económicos e sociais. Desde Roma que nos habituámos a ser o centro cultural, a metrópole onde tudo aflui. Conquistámos e colonizámos séculos depois continuando este centro. Alimentámos os nossos Estados, as nossas economias, o nosso modelo de civilização, a partir de sermos esse centro.
Mas não o somos mais. E agora, todas estas ideias concretizadas caindo, a segurança europeia, as velhas bases de uma cultura sustentada no cidadão, desaparecem. Tornámo-nos tão económicos que uma discussão do orçamento de Estado causa mais frisson do que um debate sobre …

O ORIENTE MUDOU-SE (OU FOI O OCIDENTE?)

Há dias acabei de ver em DVD a segunda série de Roma.
Discutíveis opções e saltos históricos, a verdade é que o luxo de época e a encenação sobrepõem-se, naquela que já é a série mais cara de sempre, e que é sabido não vir a ter mais sequelas.
Ao assistir a tudo, mas sobretudo à orientalização de Marco António, pareceu-me que o Oriente já não fica no mesmo lugar. Que o Oriente era um lugar e uma significação, uma expectativa, uma fuga real e dourada, durante milénios; e que deixou de o ser. Quando? A verdade é que até ainda Álvaro de Campos, num poema mais século XIX na forma mas explosivo de século XX, dizia procurar “um Oriente ao Oriente do Oriente”, mas isso mesmo já queria indicar que o Oriente já não era o mesmo. A distância da diferença, o lugar do contrário exótico, da fuga concretizada, possível, dos hábitos antigos, mudou de lugar. Nós hoje somos o Oriente de outro Ocidente, que começa depois da Gronelândia e vai acabar perto da Índia.
E até que ponto não nos “orientalizámos” n…

L'Agonie de Byzance

L'Agonie de Byzance é o título de um filme francês que nunca vi, realizado em 1913 por Louis Feuillade, um dos realizadores (a palavra cineasta caiu em desuso, repare-se) mais re-conhecido em todo o mundo, no período imediatamente a seguir à 1ª guerra mundial. Mas refiro-me a este filme, pelo seguinte: o título, na versão original, é obviamente um abraço ao Ludovic, que tenho o prazer de conhecer pessoalmente e de quem trago ainda na memória (direi mais no estômago) o sabor de um jantar arménio, todo confeccionado por ele, na casa do Pedro Sena-Lino. Para além das suas palavras, inteligência e sensibilidade, para que conste, os dotes culinários do Ludovic são a antítese da agonia. O título do filme faz-me também lembrar muitas e muitas conversas tidas com o Pedro Sena-Lino, amigo de uma conquista infindável e plena de amizade, muito para além da vida e morte das cidades. A agonia (em Bizâncio, um século e meio de agonia) enfim, terá mais a ver comigo, porque escrever assim, de uma…

Chegada a Bizâncio

Sinto a honra e o prazer a misturarem-se, ao começar a escrever aqui, ao lado do meu caro amigo Pedro Sena-Lino, grande poeta e camarada de sempre da minha lusatinidade, e do Alexandre Nave, outro grande poeta, cujos lindos poemas são tão intensa e dolorosamente vividos por seres “caídos à saudade sem regresso”, ou “fodid[o]s à noite como fábricas”. Começo a escrever aqui com um atrasozão causado pelas turbulências do quotidiano. Ensinar o português em França é cada vez mais, à semelhança da sociologia segundo Bourdieu, “un sport de combat”. Aliás, assistimos de novo desde há três dias ao bloqueio das universidades pelos estudantes, para protestar contra a nova reforma, que daqui a pouco transformará as faculdades de letras em Pingo Doce ou perfumarias em pubtrefacção, em que já foram transformados os cinemas de bairro rebeldes à Schwarzeneggerização.Portanto, falar do declínio do Ocidente parece tão natural e óbvio como abrir o seu e-mail e ver surgir mensagemonstros propondo lotaria…

JUSTIÇA DE LUXO

JUSTIÇA DE LUXO
No “Público” de hoje, duas notícias demonstrativas: o Ministério da Justiça gastou 135 mil contos em carros de luxo; mas alguns museus (como Arte Antiga e Arqueologia, dos mais importantes do país…) vão fechar salas por falta de pessoal.
Para além dos desnecessários comentários que merece o facto da Justiça precisar de andar de luxo, não podemos esquecer que se trata de um governo socialista que faz este tipo de opções. Percebemos bem que, infelizmente, já não há consciência política para estar atento a disparates destes.
O que é mais grave de tudo isto não é fechar salas para comprar carros; disparates de gestão e falta de consciência sempre os houve. Cada vez entendo com maior clareza a frase de Cristo “pobres, sempre os tereis convosco”: estes pobres [de espírito] que não sabem gerir a riqueza de todos senão empobrecendo-a, e os pobres que somos por sermos geridos desta forma, por nos ser retirado o que é nosso.
Retirado o que é nosso pelo Estado. Já nem a ideia de um s…

corrente lógica aleatória

Seguindo uma corrente lógica que tem percorrido vários blogues, aqui a publicamos (regulamento e resultado)
regulamento:(editado)
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;

RESULTADO
in The Decline and Fall of the Roman Empire, de Edward Gibbon
«It was probably some ingenious fancy of comparing the thirty tyrants of Rome with the thirthy tyrants of Athens that induced the writers of the Augustan History to select that celebrated number, which has been gradually received into a popular appelation.»

SOMOS TRÊS E MEDITERRÂNICOS

O nosso terceiro elemento juntou-se a nós. Trata-se do meu amigo e especialista em Literatura Portuguesa e Africana Ludovic Heyraud. Professor em Montpellier, junta a estes velhos lisboetas o seu cantar Mediterrânico. E em português, de que é um tão correcto falante que chegou a ganhar «Scrabble» a dois portugueses.
Reafirmo e reafirmamos as ressalvas quanto ao carácter comum do blogue, e à riqueza e diferenças de uma voz nova. continuaremos todos por cá, no barco partido da Europa, a interpretar ruínas e águas.

DOIS NA NAU IMOVELMENTE MÓBIL

A partir de hoje junta-se à minha voz solitária de crónico de Bizâncio o meu querido amigo e poeta Alexandre Nave. A sua participação é mais do que uma partilha numa amizade já antiga, é também a continuação de uma partilha que vimos fazendo, e que nos rendeu já longas leituras de poesia com outros amigos pelo corredor de noites acordadas.
Naturalmente que a sua participação vai trazer matizes pessoais e diferentes ao blogue; as suas áreas de interesse, leitura, especialização ou escrita o irão enriquecer; mas continuaremos como linha condutora uma reflexão sobre os temas mais importantes da civilização ocidental, a alteração, mutação e suspensão de certas ideias; tudo no tom lato de crónica e na ideia mestra de Bizâncio: no fim, demoradamente, de um tempo. sabemos todos que somos criadores numa Europa no fim da sua era - ou já depois do fim da sua era.
em todo o momento, porém, teremos sempre presente o gosto pela partilha e discussão de beleza e conhecimento que nos move e moveu.

Considerações sobre o estado do Estado, II

(Após uma leitura de Gomes Leal)

O Estado é, nos nossos dias, uma hidra composta de diversas cabecinhas diferentes. Vamos lá a ver se as conseguimos contar.

a) Podador – Ou, parafraseando Cesariny, poda (com) dor. Não se limita a cortar o excesso para – vamos lá – ser um Robin dos Bosques justo, munido de computadores quando o outro tinha flechas, e de um projecto enquanto o outro tinha uma aventura de justiceiro. Corta o excesso dos poucos, e não sabemos muito do excesso dos excessos. Fica-se chocado ao ver um mapa como o do destaque do “Público” de quarta-feira, dia 17, em que éramos o único país na Europa Ocidental com mais de 5% de população em nível de pobreza.
O Estado não se pode queixar de falta de informação, nem de falta de meios, nem de falta de legitimidade. A aliança europeia, o déficit, políticas comuns, deram-lhe o peso e a autoridade que em Portugal só poucas cabeças tiveram. Aliás, vergonha histórica sucessiva, nos períodos em que fomos uma nação e independente as asneir…

Considerações sobre o estado do Estado, I

De instituição criada para gerir a coisa pública em nome de todos, de instrumento readaptado pela Democracia para zelar pelo bem estar comum; de gestor comum e zelador de liberdades, o Estado é, neste momento em Portugal, o nosso pior inimigo.
Manifesta-se a controlar: de manhã à noite, omnipresente numa série de proibições com punição imediata – um totalitarismo de secretaria com milhares de espiões e tecnologia associada, dos parquímetros aos emails do Director-Geral dos Impostos sobre pagamentos de IVA e IRS. Manifesta-se a cobrar: retirando margens inaqualificáveis para não fazer o seu trabalho. Porque neste momento contribuímos para que o Estado não faça nada do seu trabalho: não apoia os idosos na sua fase final; não apoia os desempregados; não apoia os que iniciam a actividade profissional; persegue os profissionais livres; obstaculiza, em nome de uma ética da terceira idade para meia dúzia de ricos, a possibilidade dos reformados continuarem a trabalhar, muitas vezes para ajuda…

A MESA DOS INVISÍVEIS #2

A MESA DOS INVISÍVEIS #2

Retratos, pessoais e transmissíveis, do que certos invisíveis me ensinaram.

JULIEN GREEN (1900-1998)
Depois do tempo e para além dos sonhos, tudo o que não chegou a ser existe num lugar denso e interior, mais dentro que a memória. Tão perto de Deus como do medo, aí «vivemos, nos movemos e existimos», como dizia São Paulo. Alguns descobridores do invisível, como Dostoievsky, Proust ou Freud lhe deram formas ou fórmulas ou mapas, mas esse continente denso continua a ocupar todo o espaço de ser.
Entre os gestos incompreendidos e uma natureza estranha mas muito entranhada, estão os romances e o journal (diário) de Julien Green. Este místico não via Deus de frente, nem temia o seu peso sobre os ombros – nada de culpa, nada de sombras. Apenas os tentáculos invisíveis, multiformes desse ilimítrofe oceano a tecer a natureza dos actos.
«La nuit, nous sommes des fous. Le rêve organise notre délire. Nous passons un tiers de notre vie à regarder ce monde irréel et il faut meu…

"as mentiras da Arte"

Uma selecção de uma entrevista de um cantor rock português dizia qualquer coisa como isto: «A inspiração é uma das maiores mentiras da Arte».
Fiquei curioso por saber quais eram as outras mentiras da Arte, as maiores e também as menores. aliás, realmente, fiquei mergulhado no mais intenso fascínio: imaginei já que, à semelhança das boas e antigas contendas bizantinas (e cristãs) se pudesse já imaginar as sete pequenas mentiras da Arte e as sete grandes mentiras da Arte, veniais e mortais, sem obras de misericórdia incluídas.
gerações e gerações de artistas seriam distinguidos uns dos outros pelo seu domínio desta cartilha exemplar de catorze pontos, novos monges de uma rectidão artística inbeliscável.

Mas não: só mais uma vítima, a espancada, cuspida, abusada de sempre: a inspiração.
Devo dizer da minha parte, ainda para mais como professor de escrita criativa (ou literary coacher, como afirma o meu amigo Ludovic Heyraud) que concordo que o trabalho artístico tem muito mais de trabalho, …

a inquietação ferida e move

não duvido que vamos a caminho de uma luz maior. «mehr licht», disse Goethe nas suas últimas palavras.
não tem a ver com uma convicção religiosa, mas apenas com a certeza de que este jogo de luzes e sombras sucessivas, de felicidade rasgada por caminhos da mais áspera tristeza, por momentos que se transcendem a si próprios cravados por impossíveis e limites, não pode ser tudo. o progresso resolveu tudo, menos a inquietude, a noção de limite que atira insatisfação para todos os pontos o homem.
em nenhum tempo se tentou tanto apagar a insatisfação como hoje. fugas e máquinas, em exércitos imparáveis de funções e resultados, trabalham para esquecer esse peso. porque é de um peso, infinito e de ilimites, que se trata. dessa ferida sobre o cosmos, luminosa e permanente, se gerou toda a arte e toda a descida aos labirintos interiores do humano.
esperar mais luz é consequência de ser humano. esperar que surja aqui, nos corredores curtos da memória e do sangue, é demasiado.

a dupla palavra (aprendizagem da poesia)

iii. a cama
Não sei se, como leitores do texto vivo, pensamos nisto: que todos os dias nos preparamos, com abluções, outra roupa e uma miríade de gestos, para regressarmos à posição fetal, deitados em quatro tábuas de madeira, e nos entregarmos ao sono, esse grande desconhecido. É uma morte diária o que fazemos. Na cama, adormecendo, crescem não sabemos que países dentro do sono, alimenta-se a vida eterna de que precisa a vida terrena, trazem-se luzes e sombras para dentro do coração da sombra em que nos movemos. Que é claro que a poesia nasce aí, o Surrealismo o diz. Relembro apenas o surrealista francês que se deitava, pousando um letreiro na porta: «O poeta trabalha».
Da raiz bífida que a vida do inconsciente é, já Freud e todos os seus seguidores nos falaram. Infância permanente, lugar onde somos apenas um corpo entregue a um outro absoluto rio, assim é a vida secreta que vivemos no sono.
Na cama o outro corpo acontece as palavras. Torna as palavras lugares do íntimo movimentos de do…

a dupla palavra (aprendizagem da poesia)

ii. o berço
Por isso, repito: a poesia só pode aprender-se no berço e na cama. No berço, quando ainda mais do espírito do que da carne, um recém-nascido encontra na música das palavras a língua secreta de onde veio. E, simultaneamente, a língua dupla do mundo. É aqui que se vai construir o seu imaginário. Hoje, por volta dos três anos (e falo do que conheço, os meus sobrinhos) as histórias de adormecer e os romances que eu ainda ouvi são substituídos por desenhos animados violentos de imaginários fracos, assentes na destruição e na transfiguração da personalidade, num dualismo agressivo que faz com que a violência contra os animais expressa no “atirei o pau ao gato/ mas o gato não morreu” pareça uma brincadeira.
No berço, embalado ao som do ventre, a poesia pode dizer o que é, o que circula como impermanência e o que vive como sangue. Forma a língua interior e a dupla vida da linguagem. Quanto mais crescente na proximidade desta dupla vida da linguagem, mais a personalidade se pode dese…

a dupla palavra (a aprendizagem da poesia)

i. os dois lugares da poesia
Como sujeito à poesia, e sujeito de todos os poemas do mundo (que cada leitor é), acredito que a poesia só pode aprender-se apenas em dois lugares: no berço e na cama.
O verso é a linguagem do corpo, deste corpo visível e matéria de tudo, e deste corpo simultaneamente silêncio e improferível, deste corpo em devir que os românticos alemães fizeram sujeito da aventura humana. O verso é a dupla palavra, a espada de dois gumes de que fala o livro dos Salmos, que pode dizer os sortilégios do início do mundo e a melodia encantatória da Grécia e da infância, nas cantigas de embalar. É a dupla palavra porque num verso a língua se multiplica na metáfora, se desdobra bífida trazendo o veneno do sentido e a clareza do sangue. Quando Humbolt proclama que «ao mesmo tempo que a linguagem tem um carácter interno, existe igualmente como um facto independente e externo que limita o homem», fala da vida interna do corpo e da vida eterna do corpo, aquela que se inicia no nasci…

OS LAÇOS, OS IMPOSTOS E A MORTE

[a pedido, publico no blogue o texto de apresentação do meu último livro, e primeiro de contos, museu de história sobrenatural, lido em Lisboa, 26 de Setembro e no Porto, 27 de Setembro]


cheguei à conclusão de que tenho uma ideia errada a meu respeito. não que ache que tenho dois metros e a barriga dos trinta a praticamente não se notar; não que ache que não me podem acontecer coisas fantásticas como um singapurense controlar o meu voice mail à distância e me mandar mensagens sobre o tempo em Rabo de Peixe. infelizmente não é nada disso, [já que a minha geração já viu coisas bem piores como ver o Estado tornar-se no maior perseguidor do cidadão, e ser notícia de primeira página por dias inteiros a vida do novo Director-Geral dos Impostos.]
mas fazia uma ideia minha, desde há anos, de que eu seria apenas poeta (se o chego a ser, mas isso é outra conversa). pensei sempre que os mundos mais tecidos e arquitectónicos da ficção fossem negados a um rapaz que cresceu, entre terços e José Régio…

contar é mais natural que existir

Desde o princípio do mundo (quando foi...? alguém contou) que contar se tornou e é mais natural do que existir. Situar o mundo no mundo, o visível no invisível, o interior no exterior: as raízes, essa longa forma que começa nas mãos e nos pés para se perpetuar na própria ansiedade do dentro. Donde vim, pergunta permanente e inextinguível. Donde nasceu o sangue, como se formaram as paisagens da alma, os sítios percorridos pelo coração.
Contar tornou-se, desde os nossos mais infinitos antepassados, tão necessário como uma pergunta está na respiração: respiramos o mundo para dentro de nós. Assim nos perguntámos e perguntamos, tentando aclarar, na névoa da desmatéria, quem e onde somos.
Mais natural que existir: porque os que foram antes, os sítios que existem e se impõem, antigos, antes do nosso próprio corpo e dos rios que o correm, só existem contados: dispostos em bruma concretizada por outros, para que cheguem a nós.
Tão antigos como as cordilheiras, os nomes dos astros e as disposições…

identidade & ultimato

ao ver a última "sequela" da série "Bourne Identity" (e sendo que não vi as anteriores), para além das perseguições e tensão que deixa Bond como uma relíquia elegante e neo-clássica, um tema explosivo e actual surge: o da identidade.

Bourne é o segundo herói actual onde os limites da missão se confundem com o da sua identidade (sendo Jack Bauer o outro, em tom e natureza muito diferente). não se trata já da "máscara", da identidade falsa com um propósito, com que o jogo dos agentes secretos, pelo menos na sua representação literária ou cinematográfica, sempre se rodeou; mas da sucessão de máscaras tal, que a própria identidade é necessariamente rasurada. é curioso que seja igualmente o Matt Damon de "The Talented Mr Ripley" que o represente. se em Ripley a máscara tomava a forma do rosto, em Bourne é a ausência do rosto que constrói a personagem. avança pelo filme como uma imensa pergunta, desafiando tudo à sua passagem.

a maior conquista interio…

A MESA DOS INVISÍVEIS #1

[A MESA DOS INVISÍVEIS: Retratos, pessoais e transmissíveis, do que certos seres já não visíveis me ensinaram.]

LEOPOLD STOKOWSKI (1882-1977)
Este era o homem que dizia que não dirigia orquestras – que acompanhava cada músico no seu solo, que seguia a voz de cada impressão profunda que a música tinha feito com os seus instrumentos. Por isso talvez dirigisse sem batuta, como tocava órgão com os dedos mais invisíveis, como se dirigisse o próprio coro do paraíso diante de si.
Este famoso organista e maestro nunca foi um homem de consensos; e isso sobretudo porque, num momento onde a figura romântica do maestro se associava a autoridade, força e ímpeto, visão condutora, Stokowski preferiu sempre para si o papel de mínimo, de menestrel mais do que de condutor (mas um menestrel que se fizesse notar, sem dúvida); e por isso as fotografias que dele temos, como esta que a EMI reproduziu na capa deste álbum, mostre alguém que dirigia com as pontas dos dedos, como se a orquestra fosse um imenso órg…

porquê um blogue?

pois, se calhar é uma bizantinice: há três, cinco anos, quando estavam na moda, nunca tive vontade de fazer um blogue. ao longo deste tempo, a mesma coisa. talvez porque o formato de diário pessoal, que em tantos li, me irritasse.
serão por isso crónicas (e sempre crónicas), de um escritor que sou, no tempo em que sou.
gostaria que este fosse um diário interior de alguém que tenta interpretar não só o hoje, mas o que está mais longe e antigo no hoje. penso que, no fim de tudo, é essa a primeira missão de um criador.

todos os princípios começam no fim

não ser uma coisa nem outra, mas um intermédio (Sá-Carneiro), um intermezzo. glorioso ou falho.

o que importa é passar, com quanta mais luz.
começar, sempre já no fim. até porque um começo nunca tem fim, é sempre o invisível adiante.

tudo isto por causa de bizâncio; devoro há dias A Short Story of Byzantium, de John Julius Norwich. não sendo um livro de História pura e dura, é correctíssimo, inteligente e eficazmente contado. aquela excrescência histórica, ou degenerescência quase cancerígena (para continuar nas palavras longas de tom bizantino), como ao longo dos anos a pensei - e pelos vistos a pensámos, já que até Edward Gibbon, no seu Decline and Fall of the Roman Empire a considerava assim: uma espécie de barco de depravados, cadáver adiado.

um princípio que começou com um imperador Constantino e acabou com outro - como o do Ocidente "começou" com Rómulo e acabou com Rómulo Augusto. ou como este último acabou com as invasões, mas antes de mais com uma nova ordem que o crist…