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Mensagens

Repost: arqueobiografia, Santo António

(As Crónicas de Bizâncio estão de férias mas a leitura não; releia aqui alguns dos nossos posts de mais de dez anos de actividade) uma tarde de outono, com a N., naquela casa onde os fantasmas iluminavam as paredes, onde o próprio rio que se reflectia nas janelas era a corrente do sobrenatural, um Deus sem tempo veio ter comigo.
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Mensagens recentes

Repost: Um manjar de Papas

Tudo isto se lê – com terror e espanto, como preconizava Aristóteles, que de certeza não pensava numa nova religião universal quando escreveu a sua Poética, e muito menos na tragédia que o Papado foi (é?) – na sustentada e viciante narrativa que John Julius Norwich escreveu - Os Papas - A História (Civilização). O antigo diplomata Norwich e eu temos uma história de amor: devorei os seus três volumes de História de Bizâncio. A erudição velada, acessível, de que se serve para tornar as figuras históricas próximas, humanas: sentimos, após três parágrafos, que as conhecemos; a facilidade em expor situações complexas numa abordagem concisa mas clara; o cuidado em conclusões com os olhos da época, sem concessões a interpretações que desintegrem o movimento das ideias. Único problema: o aspecto de resumo que Norwich impos a si mesmo: há alguns passos em que visivelmente se cala, e onde seria excelente ouvir a restante narrativa.

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Repost: todos os princípios começam no fim

(Estamos a republicar antigas publicações no blogue; aqui vai um excerto de um dos primeiros textos) tudo isto por causa de bizâncio; devoro há dias A Short Story of Byzantium, de John Julius Norwich. não sendo um livro de História pura e dura, é correctíssimo, inteligente e eficazmente contado. aquela excrescência histórica, ou degenerescência quase cancerígena (para continuar nas palavras longas de tom bizantino), como ao longo dos anos a pensei - e pelos vistos a pensámos, já que até Edward Gibbon, no seu Decline and Fall of the Roman Empire a considerava assim: uma espécie de barco de depravados, cadáver adiado.
um princípio que começou com um imperador Constantino e acabou com outro - como o do Ocidente "começou" com Rómulo e acabou com Rómulo Augusto. ou como este último acabou com as invasões, mas antes de mais com uma nova ordem que o cristianismo trouxe, e o bizantino com um novo jogo de poder no Oriente que o Islão trouxe.  (continue a ler aqui).

Repost: Blachernae

Perdido em Stambul: porque procuro Bizâncio, Blachernae em Stambul. Dou voltas e voltas, todos os mapas me parecem de outra cidade. Senta-te, Pedro, passaram seiscentos anos, tudo mudou. Os barcos do meu coração são diferentes dos que estão nos meus olhos. Entro num gabinete de apoio ao turista. Fechado. Mas o polícia aponta-me uma loja, onde um velho senhor com um inglês perfeito me ajuda a encontrar o caminho para onde quero ir: é do outro lado, «take bus, it’s very far». Pergunta-me na despedida se tenho a certeza de que quero ir lá. Digo-lhe com um sorriso que é por isso que vim. Ele sorri como resposta e guarda para si o que ia dizer. Parece que a Ásia não quer nada comigo. Pego em mim e através desta ponte, a Galatha Bridge, atravesso pelo ponto mais breve entre a Ásia e a Europa. À chegada, uma paragem onde parecem partir autocarros para o universo inteiro.

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Repost: Mozart por Lipatti

(No período de férias, as Crónicas praticam a releitura: republicamos alguns dos nossos "posts", no primeiro parágrafo, com um agradável link para ler o resto; um "repost" por dia faz bem, não sabia?)

Se eu soubesse escrever à altura deste disco, inventaria toda uma literatura.
No dia em que nada sobrar da Humanidade, e este disco fôr ouvido por ETs, muito do melhor do conhecimento e da beleza acumulados durante milhares de anos pela Humanidade terá perdurado - e então, a exploração do homem pelo homem, Auschwitz e Hiroshima serão lavadas por esta água multidimensional, por esta magia de esferas capaz de desabitar os pecados do mundo; capaz de reabitar o mundo e de o desorbitar. Nunca duvidei que quem ouvisse este Concerto de Mozart por Lipatti tornar-se-ia uma pessoa melhor. Séculos de educação, de religião, de teoria, valem menos que esta cristalinidade. Isto, se hoje ainda soubessemos o que é ouvir - porque já praticamente ninguém se deixa ser educado …

Repost: auto-ajude-me

(No período de férias, as Crónicas praticam a releitura: republicamos alguns dos nossos "posts", no primeiro parágrafo, com um agradável link para ler o resto; um "repost" por dia faz bem, não sabia?)

A barreira dos cinquenta foi recentemente transposta, sem berreiro. Ela teria gostado de algum barulho, de uma festa surpresa, de uma manifestação pelo menos última dos seus próximos. Alguma coisa para a qual passear o pensamento nos dias iguais e tristes. O lenço verde-água com desenhos azuis está demasiado prendente ao pescoço, decoração que passou a ser conforto.aqui).
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Repost: o corvo

(Vamos de férias mas a releitura faz bem à literatura; ora releia um post antigo)
Quando o Outono vermelho foi mudado pelo longo Inverno, os pássaros chilreantes foram substituídos pela única ave que corta o branco frio de Berlim: o corvo.
Na minha memória, para além dos corvos de S. Vicente, para sempre na história e na bandeira de Lisboa, o pássaro era irremediavelmente uma coisa negra e atacante, companhia da Maga Patológica, amante de cemitérios, a considerar cadáveres uma delícia. Entre a neve, ouvir as asas negras grasnar sobre a tranquilidade trazia qualquer coisa de perturbador. Até que comecei a escrevê-lo. Àquilo: o romance que escrevi aqui em Berlim, que é sobre Portugal.
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Repost: os meninos da mamã Europa

(No período de férias, as Crónicas de Bizâncio praticam a releitura, republicando "posts" anteriores; uma releitura por dia, sabe o bem que lhe fazia?)

Depois era vê-los: sempre a falar o mesmo Inglês arrotado de consonantes arrastadas, rabecadas entre séries californianas e o que pensam ser inglês de Oxford. Estão sobretudo em Kreuzberg à noite, a relacionar-se com o mundo através do seu iphone. Escondem mal as roupas de marca por cima de um casaco em 2a mão que compram na Bergmannstrasse e que devem achar a maior loucura que fizeram na vida. Enchem as escolas de línguas do Estado de Berlim a aprender Alemão; aulas a que faltam quando a professora começa a apertar-lhes os calos ou a condená-los por chegarem mortalmente atrasados. "Puttana nazista". Enfadam-se mortalmente com as aulas, os colegas da mesma nacionalidade, os de Leste, os do Sul, os do Norte, e estão em Berlim com desejo de "Néue Iórquee" como uma ovelha a balir Almeida Garrett.

Já é tarde demais?

A visita de Trump à Europa dissipou todas as dúvidas. Se a peça de teatro que montou na NATO já tinha sido esclarecedora (atirando contra a Alemanha, dizendo que depende da Rússia, e pedindo aos aliados que paguem 4% do orçamento para a defesa), o que fez no Reino Unido foi pior. Como escrevia Jonathan Freedland aqui, o que se passou em Londres é uma imagem do que será o Reino Unido sozinho no pós-Brexit: uma presa fácil e manipulável dos Estados Unidos, o depósito de lixo da Rússia, que para lá atirou venenos velhos, coisa como nem na Guerra Fria se podia imaginar. A senhora May não podia ter descido mais baixo; ter-se-ia facilmente salvo com uma resposta em directo; mas ela nunca representou nada senão ela própria e a estirpe do mais básico sentido de casta do Partido Conservador, que ela mais defende por não ter nascido nele. Trump é um elefante numa loja de porcelanas consciente: ele visita os lugares para os assassinar simbolicamente. A acção de Putin faz o resto, pagando a popu…

Repost: Stokowski e Bach

(No período de férias, as Crónicas praticam a releitura: republicamos alguns dos nossos "posts", no primeiro parágrafo, com um agradável link para ler o resto; um "repost" por dia faz bem, não sabia?)


LEOPOLD STOKOWSKI (1882-1977)
Este era o homem que dizia que não dirigia orquestras – que acompanhava cada músico no seu solo, que seguia a voz de cada impressão profunda que a música tinha feito com os seus instrumentos. Por isso talvez dirigisse sem batuta, como tocava órgão com os dedos mais invisíveis, como se dirigisse o próprio coro do paraíso diante de si.
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Irritações & Reclamações de um Utente Frequente de Aviões

Depois do Facebook (ou o novo ano mil)

Faz hoje precisamente um mês que apaguei a minha conta Facebook. Foi como deixar de fumar: uma breve privação, e depois parece que nunca existiu.
Em troca, prometi-me ler muito mais e prometi aos amigos escrever emails mais longos. Passaram 4 semanas e em cada uma delas um longo email seguiu para pessoas que amo e com quem agora troco muito mais do que um "page down", um polegar para cima, ou um sorriso sem conteúdo. 
A que querem as redes sociais que fiquem reduzidas as nossas interacções? Leio no "The Guardian" que nos últimos anos os jogos de tabuleiro têm conhecido um aumento louco de interesse e de vendas. Uma interacção real, mesmo que mediada pelo jogo; ao contrário daquela que as redes sociais oferecem, que não é real e sofre todo o tipo de mediações (e de intermediações). Mais: que desenvolve uma espécie de mentalidade fechada. Torna-nos voyeurs permitidos, comentadores de bancada das vidas dos outros, distraídos com distracções de distracções.  Mas saber…

Assumir a chuva

O dia ameaçava, por diversos tons de nublado e por uma dança ventosa, colante e escarpa, uma chuvada dramática. Não entendo como a Bélgica não gerou mais dramaturgos, dada a densidade teatral do pré-tempestade. Em Portugal ruge e abate-se, é mais a ira de Deus anunciada e cadente. Aqui parece que o processo de reflexão divino está plasmado no tempo, como se estivesse sentado no psicólogo a decidir o que sente, isto é, o que chove, como vai chover. O dia ameaçou todo o tempo mas fui de bicicleta a toda a parte. No menor dos percursos decidi deixar em casa o impermeável, adiposo num dia calorento. Pois foi nesse minuto preciso em que, gloriosamente em cima da bicicleta e a gozar o vento dramático da pré-chuva, ela se abate contra mim. O efeito é imediato: parece que me fecho, ombros para dentro, olhos semicerrados, a chuva a colonizar-me os óculos como uma potência ocidental. Camisa, casaco, pés nus, calças, mãos, tudo empapado como se me achasse no meio do Canto V dos Lusíadas, mas a tr…