segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Os jornais dos outros

Ler os jornais dos outros

Claro não se escaparia à Flopenhaguização dos espíritos, ao coitado Prémio Obamal-me-quer em flagrante de despaz, nem às napoleonidades cotidianas do Imperador de França, nem ao fim do atum, ao fim das abelhas

aindassim

ter a força de ler unicamente os jornais dos outros, dos japoneses, porque não.

Saber de actrizes que morreram e que desconhecemos

lutos impossíveis

Saber do tempo sem saber de onde

resultados de futebol, como em qualquer lugar no mundo Fifa(fodi)do...mas de quem?

um frágil e efémero ausenciamento de frustrações e alegrias demasiado fortes

passear no quintal, plantar uma figueira, aproveitar das primaveras, como Buson, mestre do haiku:


É o último dia

da primavera. Acabei-o

passeando.


Será que Buson lia os jornais dos outros?

quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

o coração que vem de dentro

Eu gosto de ver árvores, gosto de ver a natureza a formar-se sozinha, devagarzinho. Quando tudo poderia acabar, quando os temporais são imensos, a Terra se organiza e recupera. Não tem fim seu renascimento.
Está a nascer uma árvore num lugar da minha quinta onde havia muitas roseiras há muitos anos. O vento destruía a elas, sempre, e eu plantei uma árvore sem esperança no sítio onde as rosas morriam.
Ao mesmo tempo alguma coisa cresceu no meu coração, no sítio mesmo onde o amor foi ferido.
É por isso que a gente é feita de terra.

VIVER FORA CÁ DENTRO

Acabo de cumprir uma semana-programa, rigorosamente: passar uma semana inteira sem ler um jornal português, ouvir notícias na rádio, ver noticiários na televisão ou na internet. Só ler jornais estrangeiros. E qual é a minha conclusão: que a única possibilidade para viver neste país é estar aqui como se estivesse no estrangeiro. Viver fora cá dentro.
Vou entrar na segunda semana a ver se sobrevivo.

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

o país funciona? Nº1 de milhares

Manuel Alegre anunciou a sua candidatura à Presidência da República. Sem meios mas nem caminhos intermédios. Sem apoios prévios conhecidos. Ficou-lhe bem, e à independência que se espera de um candidato presidencial, que deve vir sempre de algum lugar mas a partir daí perder as raízes para ser de todos.
Devo dizer que não sou suspeito nas minhas afirmações: com excepções que se contam pelos dedos de uma mão, não gosto da poesia de Alegre; e não gosto da figura autoral que emerge dos poemas. Mas reconheço uma certa hombridade e independência que sai da sua acção, que sempre achei ser uma certa incapacidade para negociar consigo mesmo entre fundas convicções e jeito para fazer o jogo dos media. Acho-o um homem sério e coerente, em muitos aspectos independente mas limitado por anos de senador sem lugar. Lentamente a figura surge e traz agarrada uma base profunda de esquerda que o liga ao republicanismo íntegro da primeira República. Aliás, é um pouco uma figura da Primeira República, mas que tem aprendido consigo mesmo e com o tempo a gerir os estilhaços do seu partido e da projecção mediática.
Fará o pleno da esquerda, coisa que Sampaio fez mas não sem tanto afastamento ou independência (e foi provavelmente o melhor Presidente pós-25 de Abril, por vários motivos que valiam outro post). Alegre vale por si e será sempre independente nos seus apoios.
É a figura que toda a esquerda, algum centro e até alguma da direita encontra com a sinceridade e os princípios que faltam ao tecnocrata Prof. Cavaco, emparedado entre os jogos do Governo e um perfil de competência técnica deste que é apenas jogo chic para as câmaras da comunicação social. E mais: estranhamente, saberemos que Alegre fará a vida muito mais difícil a qualquer governo, de esquerda ou de direita, não em desconfianças ou mini-crises, mas em estabelecer claramente princípios lógicos e comuns.
Este grito de independência, assumido por quatro anos bem geridos, vai custar a Presidência a Cavaco. Mas para mim é mais esperançoso ainda que isso: que pode emergir deste gesto uma nova classe política, independente e guiada por princípios, onde a independência e princípios coerentes possam gerir de uma vez por toda a actividade política. Acredito que mesmo numa impossível derrota, Alegre semeará muitas coisas consigo. E isso, tão raramente, diz-me que este país pode funcionar.

domingo, 10 de Janeiro de 2010

A CHUVA QUE CAI DO CORAÇÃO

Jardins para o fim dos tempos: Quarteto No. 15, op. 132, 3º andamento, "Heiliger Dankgesang"

O princípio é de Verlaine: «il pleut dans mon coeur comme il pleut dans la ville». Cito de cor, de coração, que é isso que a expressão quer dizer desde a aurora dos tempos. O princípio é de Verlaine, a realidade é minha, e tão pessoal que escrevê-la faz o som doer.
Wilhelm Furtwängler não levava cigarros dentro do sobretudo com que saía para passear por Berlim; mas só um pequeno livro com as partituras dos quartetos de Beethoven.
Esta semana, ao ouvir, e por uma vez compreender, o "Heiliger Dankgesang" (canto de acção de graças), sei de uma vez por todas, sei pensadamente no coração, sei com a certeza de que chove mais severamente dentro de mim mesmo do que alguma vez choverá sobre a terra: que aqui a música tocou o seu extremo. Que um sentimento humano vivido e depurado torna-se numa casa de silêncio, onde todos os seres humanos podem ficar, conhecer-se, mudar-se pelo interior inteiro.


[ainda estou demasiado apaixonado pela obra para recomendar versões, mas a do Quarteto Talich (Calliope) é uma construção de suavidades infinitas, e a do Quarteto Borodin um jogo de conflitos em pacificação. tensões mais crescentes, a do Quarteto Takács. Que cada um escolha as suas armas.]

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Concerto para Violoncelo e Orquestra de Dvorák
As coisas que amamos nunca se perdem. Ficam num lugar muito longe, mais longe que o tempo. Por vezes regressam, e podemos quase tocar-lhes o rosto, como um sonho que vem da maior verdade do coração, se suspende, e cai como a chuva da primavera na terra a renascer. Doem, como o corpo depois do naufrágio de alguém dentro do próprio maremoto da vida. Mas são claras, mais claras do que o amor visto nos olhos de quem amamos.
Assim esta música, que parece surgir de um deserto violento por tantas imagens, por tanta perda acumulada. O violoncelo parece rasgar-se não do que diz, mas do que guarda, de tantas coisas que traz agarradas à corda da voz, e explodirá se as disser. Não pode dizer as coisas que amou e são mais reais do que o seu próprio regresso.


Uma vez, na estrada dos vinte anos, aquilo que ficou por dizer-se, um olhar apenas com a nitidez em ferida do futuro. Isso é esta música, este adagio em paz mas que parece nunca mais regressar do seu sonho, barco levado à procura de si mesmo.


E que termina em luz, em quase festa, na certeza de que todos os encontros estão sempre por cumprir, e só acontecem quando a luz acaba e o princípio começa no fim.


Pablo Casals nos anos 30 (Naxos), severamente apaixonado; Pierre Fournier com o mesmo Szell que Casals, mas nos anos 50 (DG), torturado mas rigoroso. Ou esta gravação de Jacqueline du Pré com Celibidache (Teldec): basta pô-la a tocar, cancelar o mundo por meia hora, e saber que é em nós que o futuro tem de acontecer.


segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

O futuro é o trabalho do presente

Acaba o ano, sucessão de folhas mortas, caminho de luzes baixas, com futuros inesperados. O futuro é o trabalho do presente. Alguém tem de cuidar do futuro, ou o passado morre.
O fim do ano deixa-me sempre nesta espécie de corredor, a Terceira Sinfonia de Sibelius, o fim tocado pelo princípio.

Por isso leio, cada ano no fim, este poema das Odes de Rumi (Livro de Mesnavi), poeta persa do século XIII, de cultura sufi. Cá segue uma tradução pessoal, com falhas, mas saboreada, com votos de um ano novo.


Somos como a flauta, e a música em nós é tua;
somos como a montanha e o eco em nós é teu.
Somos como as peças do xadrez envolvidas em vitória e derrota:
a nossa vitória e derrota é tua, Ó tu, de saborosas qualidades;


Quem somos nós, ó tu, alma das nossas almas,
que persistimos em ser longe de ti?
Nós e as nossas vidas somos verdadeiramente não vidas;
mas tu, ser absoluto, revelas o perecível.

Todos nós somos leões, mas leões numa bandeira:
pelo vento que eles impelem para diante momento a momento.
A sua urgência para diante é visível, e o vento é invisível:
possa o que é invisível não falhar por nós.

O nosso vento, por isso avançamos, e o nosso ser é graça tua;
toda a nossa vida é por nos trazeres à vida.

quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

A Igreja Católica e o casamento gay, II

Volto a responder a José Miguel, que teve a simpatia de comentar o meu post anterior e de partilhar comigo e connosco a sua opinião. É precisamente este tipo de debate que faz falta no interior da Igreja e no nosso próprio país. Respondo pessoalmente, pedindo licença aos leitores do blogue por mais uma carta pública.


A sua resposta incide em três pontos: Verdade, Identidade e Igualdade. Refere que temos noções muito diferentes. Eu penso que é claríssimo que têm a mesma raiz mas – mais do que concepções – têm resultados diferentes. Sabemos o resultado de algumas dessas concepções. Acredito que o processo dos seres humanos é para o crescimento, a liberdade maior, para o «crescei e multiplicai-vos» que o Génesis metaforicamente aponta como destino.

A libertação de seres possuídos, demoníacos, no Evangelho é naturalmente a representação de problemas psíquicos, mas tem também um significado metafórico: representa igualmente seres tolhidos na sua vontade e pensamento. É porque Cristo consideraria que libertá-los, na sua passagem na Terra, era trazer a cada homem a urgência profunda de uma libertação integral da sua liberdade e do seu livre-arbítrio.

No seu comentário, José Miguel refere: «Há de facto na nossa cultura a tentativa de impor o pensamento único de que o bem está garantido pela autonomia da vontade e do pensamento. Tem o mérito de promover a saudável e necessária maturidade da consciência. Mas à custa da verdade sobre o próprio Homem condenando-o à escravatura do sentimento e do subjectivismo.»

Aqui paro, em pavor e espanto, e pergunto-me desde o primeiro homem: alguém é livre sem autonomia da «verdade e do pensamento»?!?! Centenas de filósofos podem responder-lhe da Grécia antiga até hoje. A autonomia da verdade e do pensamento: isso foi a luta de séculos que tornou o Ocidente o que é hoje. O processo não está terminado e deve ir mais longe: ou o pensamento, a democracia, a liberdade interior e política que obtivemos, é negativa? A fé de cada cristão, e a fé da Igreja, que como dizia o teólogo Hans Kung, é antes de mais uma relação de confiança, deve inspirar os outros seres a conquistarem mais liberdade. Mas eu acredito que mais liberdade gera mais libertação: e Deus quer o ser humano livre, para mais livremente se construir e poder encontrar Deus em todas as coisas. E por isso acredito que toda a pressão que a Igreja coloque em regular a sociedade é contraproducente. Acredito no crescimento da Humanidade. Acredito que as bases do Ocidente são sem dúvida dadas em parte fulcral pelo Cristianismo; mas também pela Filosofia, mas também pela História de supressão, colonização, genocídio que perpetramos, que começou noutros povos e passou pelo silenciamento do papel da mulher, por exemplo. Que todos estes aspectos devem – e estão a ser – assumidos e corrigidos pela Humanidade em crescimento. Esperamos que, por exemplo, a Cimeira de Copenhaga resolva cem anos de atentados à Terra que Deus criou.

Caminhar nessa consciência implicou a separação entre religião e sociedade. Acredito que o papel da Igreja neste momento não pode ser querer voltar a uma dimensão de controle sobre a sociedade e sobre um processo, mas manter-se como símbolo do essencial. E que deve acompanhar esse crescimento, começando por assumir que dentro de si mesma iniciou e manteve processos de exclusão. Já pedimos perdão aos Judeus, já pedimos perdão pelas Cruzadas, já pedimos perdão a Galileu: há um caminho notório que deve prosseguir. E gostaria que me dissesse onde encontra pensamento único no Ocidente hoje em dia. Se me diz que há um primado do ter sobre o ser, ninguém discorda; se me diz que há um excesso de consumismo, também. Mas caminho único? Não vê o processo que permite a cada ser agir mais livremente? Deus para mim encontra-se e multiplica-se em liberdade cada vez maior. É esse o significado da mudança interior dos Apóstolos antes e depois da Morte e Ressurreição.

«Crescei e multiplicai-vos»: o que Deus pediu a Adão e Eva. Sendo palavras numa zona alegórica da Bíblia, o Génesis – espero que não a considere literal – também elas estão revestidas da multiplicidade de sentidos. A relação do ser humano com a palavra de Deus é concreta e metafórica, é a “espada de dois gumes” de que falava o salmo: e é nesta metáfora que crescemos, subindo sentidos concretos mas mais altos. Não acredito que este significado possa ser literal: que Deus pretenda que o ser humano desenvolva o seu corpo apenas ao ponto de se poder reproduzir – tout court. Mas crescei interiormente, dentro de si próprios, sempre a procurar o absoluto em cada coisa, para serem altos interiormente. E depois disso, “multiplicai-vos”, «sendo tudo para todos»: a reprodução é interior, primeiro, para gerar muitas mais multiplicações, para fora, para trazer Deus a todas as coisas. Cabe ou não cabe aqui o amor entre dois homens ou duas mulheres? Ou entre uma mãe e um filho, dois amigos, um mestre e o seu discípulo? Todas as relações entre dois seres, do amor conjugal ao amor de amizade? Não estamos nesta Terra para crescer para o céu e multiplicá-lo em gestos? Parece-me óbvio que a imagem funciona melhor – em termos de construção metafórica – se reproduzir o símbolo donde nascemos, do amor entre um homem e uma mulher. Se a imagem fosse construída com a relação entre um homem e um tigre, ou uma árvore e uma esfregona, talvez não fosse tão poderosa. Mas arrogar-nos a tomarmos literalmente uma imagem é não crescermos em sentido. Se quisermos ser literais, e não historicamente informados, depois de milénios sucessivos de história dos homens sobre a Terra, não crescemos e muito menos nos multiplicámos.

Mas vamos atacar de frente o assunto que começou esta troca de opiniões: Levítico, capítulo 18, versículo 22: «Não coabitarás sexualmente com um varão; é uma abominação». É textual, está dito no Antigo Testamento. Mas antes, versículo 11 e seguintes, também se lê: «Não descobrirás a nudez da filha da mulher do teu pai, nascida do teu pai, porque é tua irmã. Não descobrirás a nudez da irmã do teu pai; é a parente próxima do teu pai. Não descobrirás a nudez da irmã da tua mãe, porque é a parente próxima da tua mãe. (…) Não descobrirás a nudez da tua nora; é a mulher do teu filho, não descobrirás a sua nudez. Não descobrirás a nudez da mulher do teu irmão; é a nudez do teu irmão.» Bom: milhões de seres sobre a Terra desde que Cristo fundou a sua Igreja são então abominações: milhões de seres em milhões de casamentos aprovados pela Igreja, celebrados na Igreja, sobretudo entre reis – e que a nossa Igreja promoveu e apoiou, em nome das mais (supostas) cristianíssimas intenções. Podia passar dois mil anos a citar casos, até na corte papal Bórgia. O Levítico não foi cumprido? Porque era metafórico? Onde é que Cristo no Evangelho proíbe a união entre dois homens ou duas mulheres? Ele, que se sentava e convivia com os excluídos? Mais do que sobre moral sexual, a Bíblia pulula de referências à usura. E o que têm os cristãos feito com os bancos? E a expulsão dos vendilhões do Templo, foi só uma fúria de Cristo ou lenha para se crucificar? Há gesto público mais afirmativo e devastador? O que quer isto dizer? Todos os dias me pergunto, e não vejo na História da Igreja, actual e no passado, um equivalente. Não será o momento, num cume de consumismo, que procuremos o significado disto dentro da nossa própria Igreja?

«Mas não se pode pretender que seja o único pensamento aceitável»: responde-me, quanto ao ponto de a psicanálise reforçar que a verdade que existe é a dos sentimentos de cada sujeito. Claro que toda a gente compreenderá que não será isso o pensamento único, ou viveríamos todos entregues aos delírios próprios (Santa Teresa foi considerada delirante pela hierarquia…): mas relembro-lhe as suas palavras anteriores, onde deve integrar estas, e não descontextualizá-las: «Reduzir a relação entre humanos ao sentimento afectivo que se nutre reciprocamente». Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Até porque a questão que começou esta nossa tão produtiva troca de opiniões é entre os sentimentos entre dois seres: sentimentos interiores, lutados, vividos no mundo, e por isso capazes de reproduzirem humanidade à sua volta. Repiso: mesmas concepções, resultados diferentes. Continuo, porém, a não compreender a sua argumentação. Permita-me citá-lo: «Por isso é abusivo deduzir que "o afecto recíproco trunca", mas pode-se reconhecer com honestidade intelectual que "a redução das relações entre humanos ao afecto que se nutre reciprocamente" trunca.» Ao ler as suas palavras, o Evangelho parece levantar-se inteiro para lhe responder. Mas a primeira frase que me surge é esta: «Quem não amar não pode conhecer Deus, porque Deus é amor.» (1 Jo 54,8). O afecto é entre dois seres – ponto. Ninguém fala em reduzir afecto: mas em vivê-lo plenamente, para «crescer e multiplicar».

E continuo sem perceber, e lamento, porque é que a liberdade civil de dois seres lhe parece tão nociva.

E por isso volto ao ponto em que iniciei: referia termos noções diferentes, dizia-lhe termos raízes iguais, mas as nossas concepções terem resultados diferentes. Acredito que o progresso do Homem com a separação entre religião e conhecimento gerou crescimento e liberdade. Acredito que aí está o «crescei e multiplicai-vos». Acredito que o ser humano é mais livre depois disso, para mais livremente encontrar Deus. Se me fala de concepções de vigilância e limitação do indivíduo, com tantos resultados desastrosos que isso provocou, então acredito que procuramos resultados diferentes; e lamentando muitíssimo que não partilha a mesma liberdade do que eu. A minha nasce, cresce e reproduz-se aqui: «Eu vim para que tenham a vida, e a tenham em abundância» (Jo, 10, 10).

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

comentário a um comentário ao post anterior

Faço este post em resposta a um comentário aqui colocado ao post anterior, "A Igreja Católica e o casamento gay, I". O "II" seria para me deter um pouco mais precisamente no significado da expressão "casamento gay", mas pelos vistos não tive tempo. As reacções vieram cedo demais. Agradeço todas. E por isso mesmo aqui segue em forma de resposta em carta aberta, a todas mas em particular a José Miguel que teve a delicadeza de ler a minha opinião e responder, o que desde já agradeço.

Um dos pontos da sua resposta dizia, e cito: «A união homem/mulher é anterior ao cristianismo: está presente na ordem natural do ser humano, onde identidade feminina e masculina são diferentes e convocadas uma para a outra. Na sua união resplandecem na sua identidade e complementaridade.»

Sublinho as palavras «ordem natural». O meu texto não incidia directamente sobre o casamento gay, nem mais precisamente na minha opinião sobre até se concordaria com a expressão, mas apenas com o facto de ser possível a existência de uma situação prevista em lei para duas pessoas, e a reacção de alguns sectores da Igreja Católica a essa questão. De facto, e posso dizê-lo desde já, não creio que a expressão seja a mais correcta. «União civil» parece-me bem mais interessante. Não porque considere a união entre duas pessoas do mesmo sexo uma união segunda ou espúria, mas porque há passos para dar devagar dentro da cabeça das mentalidades, e também porque a palavra "casamento", mesmo sem a considerar do ponto de vista da minha religião (procuro sempre distanciar-me para ver melhor, é uma questão de abordagem que procura o conhecimento) está muito relacionada em termos civilizacionais com a matriz católica.

De toda a forma, bastará qualquer pesquisa que não se oriente por um ponto de vista surdo e reescrevente da história da humanidade para identificar que no ser humano, tal como na natureza repleta de milhares de outros seres, há desde muito cedo sobre a Terra indicações de relações entre dois homens ou duas mulheres. Aquilo que é identificado como «ordem natural» é a ordem da Natureza, e a Natureza define-o claramente. Não vou soterrar este texto de reencaminhamentos históricos antiquíssimos ou de dados científicos recentíssimos. Isto para dizer que é cada vez mais claro que ninguém pode arrogar-se a usar a expressão "ordem natural". Mas sim que a questão da identidade masculino/ feminino é uma questão que não se fecha apenas na genitalidade de cada um, mas é muito mais complexa e profunda. A "união homem/ mulher" gera outros seres, é irrevogável: mas não somos apenas chamados a procriar na carne, mas no espírito. Perceber que muitas outras uniões passam por isso é então dizer que a entrega de um homem ou de uma mulher por absoluto a uma vida de consagração religiosa vai contra a "união homem/ mulher": também não procria, logo vai contra a "ordem natural". Não posso ser mais contra essa acepção, porque precisamente acredito que muitas relações que "procriam no espírito" - e agora cito Platão - "que procriam no belo" passam além da união homem/ mulher.

Vem depois no comentário de José Miguel o argumento que «reduzir a relação entre humanos ao sentimento afectivo que se nutre reciprocamente, é truncar-lhe a dimensão social, histórica, antropológica, eterna...». Portanto, deduz-se desta afirmação que o afecto recíproco trunca. A psicanálise caminha há cem anos, estudadamente, e pelo menos a partir daí é claro e notório de que a verdade que existe para cada ser humano é a dos seus sentimentos. Como pode um ser viver sem os seus sentimentos? Será tão vivo sem eles como uma pedra. É nas relações que o infinito se transmite e passa («o que fizerdes a cada um destes pequeninos, a Mim o fareis»): um cristão sabe que cada ser com que se relaciona é Deus em presença, em fim. Em todas as relações. Não viver o "sentimento afectivo" - se há sentimentos que não são afectivos... - é, e cito José Miguel, "encerrar-se numa roda de sentimentos que se originam em si mesmo". Na Igreja, os crentes, irmãos, encontram-se no mesmo caminho para o "horizonte do desígnio eterno de Deus" (José Miguel dixit): para não serem fechados aí; a Igreja é envio, "Missa" vem de "missa est", são enviados. O que celebramos dentro, é para ser vivido fora.

«É o que se passa quando uma cultura quer reduzir as relações humanas aos ritmos das escolhas pessoais e sentimentais» (continuo a citar o comentário). Mas nenhuma cultura quer reduzir as relações humanas a ritmos! Conhecem alguma? Só as totalitárias, que todos esperamos de infeliz memória, repetíveis nunca mais. O que se trata é precisamente de criar mecanismos que permitam ampliar as relações humanas: e o problema é que estamos a assumir que há outros, iguais a nós, que uma noção legal torna de facto iguais. Já não digo iguais em termos de oportunidades perante a Lei entre duas pessoas do mesmo sexo que se podem equiparar a duas pessoas de sexo diferente: o escândalo, o problema, é precisamente outro: tornam-se notórios, iguais aos outros no mundo. Deixam de ser uma coisa impronunciável (que o perseguido também espero ter já acabado), um silêncio que toda a gente conhece mas não diz, mas estão perante a luz iguais. Não é isso que Deus quis quando nos formou iguais, e nem preciso de citar a Constituição Americana, «all men are created equal», escrita por bravos homens profundamente cristãos? Então, igualdade de oportunidades.
Se a Igreja Católica quer, para os seus crentes, indicar que discorda disso, é um trabalho a fazer com os seus crentes - coisa que, no meu ponto anterior, me parece ter ficado bem claro de que discordo. Mas ainda menos legislar na sociedade ao ponto de querer impedir essa igualdade. Que venha a igualdade, e que a Igreja contribua para o esclarecimento do que considerar. Agora: negar essa liberdade é, notoriamente, contra o coração da mensagem cristã.

«Na certeza que as maiores atropelos aconteceram sempre que pessoas e grupos dentro dela pretenderam eleger o seu modo de sentir e pensar como o único que respeita o Evangelho.» Sim: aconteceram, mas dos dois lados da questão. E por isso é que não houve união, só divisão. O Budismo está cheio de correntes diversas, que não se combatem, mas são várias visões da mesma questão. Coincidem, têm até o mesmo guia espiritual. Porque é que não aconteceu o mesmo com o Cristianismo: porque dos dois lados da questão, mas sobretudo do lado da Igreja Católica (perdoem-me, vou citar de novo) «pretenderam eleger o seu modo de sentir e pensar como o único que respeita o Evangelho.» [E assim, sobre o que tomei ser apenas uma sua liberdade expressiva ao referir que não percebe que Igreja amo, porque a considero «uma mera facção que controla a vida dos outros», penso termos todos ficado claros.]

«A missão da Mãe sempre foi apresentar caminhos de bem aos filhos, ainda mais quando os vê correr riscos de se magoarem por se guiarem apenas pelo que sentem, esquecendo o sentido e significado profundo e eterno das escolhas que fazem em cada momento», diz o comentário (sendo "Mãe" a Igreja Católica). Precisamos portanto de um legislador sobre nós mesmos, um polícia para o sentimento, já sem falar de um polícia para a alma. É essa a visão que tem da Igreja Católica? Antes disto vem a fé, a relação de amor que cada ser tem com o seu Deus. Lamento não ter encontrado a palavra "fé" no seu comentário. Eu faço questão de a repetir três vezes, como a Trindade. A Igreja é onde se encontram os homens que partilham a mesma fé e a celebram com todas as suas limitações e a sua procura do infinito: não é procurar um reduto ou uma armadura para se dividir internamente a si mesmos ou perante os outros seres. Agradeço a sua felicidade pelo meu amor pela Igreja, mas temos visões diversas dentro da mesma casa, e isso é, repiso, as muitas moradas que Cristo dizia haver na casa do Pai. É que eu não disse nada, aqui e agora, neste post ou no anterior, que fosse anti-Evangelho.
E sobre a dimensão pessoal que colocou no início do seu comentário, sobre a "procura da minha vocação". Estou feliz por a ter encontrado e encontrar a cada instante: e perceber que a cada momento ela não é imutável, que Deus pede o mesmo ser a recriar-se a cada instante e a cada momento. É isso que é a Criação, ser continuamente criado por Deus. Ser chamado a ser ele mesmo, e a agir e construir-se, e com isso ser o próprio processo com que Deus cria. É para isso que sou chamado a cada instante: a ser com Ele mesmo igual a todos os homens: «Amai a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a vós mesmos»: e o próprio Cristo dizia ser este o maior mandamento. Criados iguais.

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

OS MELHORES CDS DE 2009 OU PRESENTES DE NATAL

Alguns simpáticos leitores do blogue mandaram-me mensagens perguntando quais foram os discos de música clássica de 2009 que mais gostei; e que poderiam ser bons presentes para oferecer. Achei a proposta fascinosa para quem é crítico nenhum de música clássica, mas apenas um amante com uma inflamação prolongada.
Cá seguem as propostas, sublinhadas apenas pelo gosto.

Haydn: Quartetos para cordas
Op. 20 nº 5, op. 33 «O Pássaro», op. 76 nº5
Quarteto Jerusalem
Harmonia Mundi


Perfeição de som, perfeição de entoação, perfeição entre o respeito da letra e a leitura lírica. Estes quartetos assim tocados cantam porque é que Haydn é o pai do Quarteto. O «Pássaro» levanta voo, canta, e fala de manhãs impossíveis de morrer mesmo que o corpo deixe o corpo.
Música das manhãs de Sábado quando a luz do possível reveste tudo de infinito.



Vivaldi: Concertos para dois violinos
Guiliano Carmignola, Viktoria Mullova
Venice Baroque Orchestra, Andrea Marcon
Deutsche Grammophon

O mundo é possível depois deste disco: a vitalidade necessária para o reinventar salta aqui em cada corda, em cada movimento, na alegria de viver. O Vivaldi de "As Quatro Estações" é inventivo, mas há mais vida para além disso. Este disco prova-o a cada nota. Cuidado com os vizinhos.




Beethoven: Integral das 9 Sinfonias
várias orquestras, Hermann Scherchen (anos 60-70)
Tahra


Se quer descobrir um Beethoven inventivo, inquietante, quase modernista, é esta a sua interpretação. Ninguém sai da releitura de Scherchen inteiro: é uma revisão radical de um chão mental e sonoro onde o Ocidente se funda. E com isto somos todos mais livres, e somos todos mais novos. Ouvir a Sétima ou a Oitava nesta precisão de ritmos quase modernistas, nesta velocidade de ver interiormente, é nascer de novo dentro do próprio nascimento.





Russian Historical Archives: Maria Yudina
Brilliant Classics


Esta caixa é de Pandora, mas ao contrário: saem de lá liberdades inimagináveis. Esta mulher russa, que gravou dois concertos de Mozart noite fora para um ditador ouvir, é rigor e liberdade. Um segredo: Glenn Gould nasceu na barriga das mãos desta senhora. Mozart como nunca se ouviu, Schubert fresco sem viagens de Inverno.






Dinu Lipatti
Colecção «Icon»
EMI


A Emi lançou este ano uma extraordinária colecção a preços relativamente acessíveis (se fizermos a conta por cd) estas caixas dedicadas a grandes intérpretes: Schnabel, Hotter, Kreisler, entre outros. E pelo meio, Lipatti. Já lhe chamaram tudo. Eu não hesito em chamar-lhe Cristo do Piano. O que sai de cada nota, a morte ampliou em luz. É a música mesma.



[Outros cds, não saídos este ano, mas que ouvi obsessivamente como novos: os concertos para Clarinete de Weber por Martin Fröst (Bis); a Sinfonia Espanhola de Lalo por Isaac Stern e Eugene Ormandy (Sony); e claro, sempre, a Sétima de Beethoven por Carlos Kleiber (Orfeo), porque não é possível levantar-me todos os dias de manhã sem essa parte do sopro de Deus.]

A Igreja Católica e o casamento gay, I


Fui informado por vários amigos em diferentes zonas do país de um acontecimento ominoso: à saída de várias missas estão pessoas, católicos, a recolher assinaturas contra o casamento homossexual. Pior que isso, muitas vezes os párocos em plena missa avisam para a sua presença e invectivam os presentes a assinar essas folhas.

Sou profundamente católico. E por isso mesmo, este acontecimento - esta sequência combinada de acontecimentos, esta campanha, que só pode estar a ser orquestrada com a anuência de alguns movimentos religiosos e figuras importantes da hierarquia católica - enche-me da mais rigorosa indignação.

A Igreja Católica foi desde a queda do Império Romano dominada por uma facção que a procurou controlar, suprimindo todas as outras correntes de pensamento; uma facção ortodoxamente dirigista nos costumes, cega no diálogo interreligioso, violenta na supressão de outras correntes. Serviu-se sempre da sua proximidade com o dinheiro e de uma máscara de uma certa perfeição de rigor doutrinal para suprimir as outras. Gerou aberrações extraordinárias como a maioria dos Papas da Renascença, todos os cismas que dividiram a Igreja, assassínios em massa de outras correntes, a tentativa de suprimir arte e progresso científico. Porém, é esta a Igreja que eu amo, estando ela gerida por gente surda ao Espírito e para quem a condução da presença de Deus na terra é similar a uma entidade bancária com vagas preocupações extra-estelares. Eu sou católico e integro-me nesta Igreja porque acredito que a luta do Espírito Santo para mudar a Igreja Católica passa pela conversão dessa facção. E que passa concretamente por mim, pela minha liberdade e conhecimento disso mesmo, pela minha liberdade e natureza única da relação com Deus para agir contra interiormente contra esse ambiente.

Um dos aspectos mais devastadores dessa acção, ao longo dos tempos, foi uma intromissão legislativa sobre a única - a única - dimensão no mundo que não pode ser controlada por nenhum outro ser: a relação de uma pessoa com Deus. Acredito e aceito que o clero católico, em particular o Papa e os seus documentos, e as reuniões dos Bispos, têm o dever e a necessidade de se pronunciar sobre a eucaristia e a gestão dos sacramentos. Mas a partir daí o seu papel é apenas sugestivo sobre a forma de cada cristão viver interiormente aquilo que Deus lhe pede. Falo da liberdade de cada um viver a sua relação com Deus, que é única. Não é única a relação que se estabelece entre quaisquer dois seres humanos? Entre quaisquer dois seres, humanos e não-humanos? Não será ainda mais única a relação entre criador e criatura?

Essa pressão, que não cessa e que aumentará, inexoravelmente, da hierarquia católica sobre a vida interior e suas consequências em cada cristão, é a dimensão mais anti-Evangelho que conseguirei imaginar. Teve o seu corolário com o recente convite de Ratzinger aos anglicanos que se opunham à ordenação de mulheres e de homossexuais. Um convite que não se baseia - como em tudo nesta corrente que gere a Igreja Católica - em nada, repito NADA de teológico (ah, venham para cá, e não é preciso dizer não às antigas questões que nos separam) mas apenas opor-se a essa questão para serem aceites. Se este perdão considerar um perdão da Igreja pelo assassínio em massa de todos os cátaros e gnósticos que orquestrou em plenas cruzadas durante a Idade Média, compreendo que alguma coisa mais se passará, e que teremos então um processo de afrouxamento dessa dimensão controleira da moral. Mas o convite de Ratzinger não parece isso. E esta nova dimensão portuguesa contra o casamento gay mostra infelizmente isso. Não me venham com questões regionais. Séculos de práticas cancelatórias falam mais alto.

Que tem a Igreja Católica que meter-se num assunto que é de dois seres, antes de mais de ser do Estado, e que tem apenas a ver com a criação de situações legais para duas pessoas juntas? Que é apenas sobre a mais plena liberdade de dois seres que podem ter consigo mesmos, e portanto com os Deus que os criou e os cria a cada instante, assim na Terra como no Céu. Ou quer isto dizer que a Igreja Católica os acha condenados no Céu, e por isso os condena na Terra?

Quero ver a Conferência Episcopal Portuguesa pronunciar-se sobre isto. E quero ver ainda mais, se não se pronunciar, a liberdade dos filhos de Deus em prática, aceitando que à porta das Igrejas - sem avisos dos párocos - estejam lado a lado assinaturas a favor e contra o casamento gay. Isto sim é a liberdade de perceber que «na Casa do Pai há muitas moradas»: uma das citações de Cristo que a Igreja Católica parece ter menos compreendido.

domingo, 6 de Dezembro de 2009

333 e Teixeira-Gomes


Aqui cito excerto de um texto que li na Biblioteca Manuel Teixeira-Gomes de Portimão, numa sessão sobre 333, em que tive ocasião de agradecer a marca profunda que o escritor algarvio gravou em mim - neste ano em que começamos a celebrar os 150 anos do seu nascimento.


os livros são casas. são casas no silêncio. e como todas as casas, têm de existir sobre uma terra que os sustente. se há uma terra para a poesia que escrevi, é o Algarve. devo começar por dizer que vou fazer um itinerário de afectos, um percurso interior com marcas, curvas e contracurvas. mas que ainda antes de começar quero agradecer a oportunidade de estar aqui convosco, e esta, de fazer este percurso – que como todas as construções, só faz sentido se fôr partilhada, visitada.
foi neste Algarve que os meus pais se conheceram, foi neste Algarve que fui gerado, foi neste Algarve, que ainda conheci rural e menos urbanístico, em que morri pela primeira vez. eu devia ter menos de dois anos quando, junto dos meus irmãos e dos meus primos, me fixei num peixe junto de uma rocha. brilhava em tons azuis, verdes, imateriais. baixei a cabeça para o tentar apanhar. e não me lembro de mais nada: só da água nos pulmões, a estalar a respiração, a quebrar o ar, e eu a sentir a assinatura de Deus pelo corpo todo.
fui salvo pelo meu pai por segundos, de acordo com ele. teria morrido. posso confessar que ainda hoje, em momentos de uma emoção que transcende o meu corpo, as minhas raízes, eu sinto os pulmões estalarem – como se me fosse dito é para isto que foste vivo. no meu terceiro livro de poesia, biofagia, está um poema sobre este acontecimento:

v.[primeira morte]
os charcos da água salgada
na praia ouvia-se o estrépito de pequenos pés
e a cabeça mergulhada no azul todo
o esquecimento dos outros até onde
eu ia morrendo de água nos pulmões
até à comunicação de um estado líquido

narciso bêbado do espelho
dois anos e já o esquecimento caminho claro
suicídio de água

esse estalar, da vida que foi roubada à morte, foi aqui no Algarve. como se eu fosse para outro destino, e esta terra quisesse gravar-se no mais fundo do meu peito, nas raízes de ar da minha existência, e me pedisse que a escrevesse. não é conversa para agradar a Portimoneses: foi de facto nesta praia que mais tarde eu comecei a escrever. eu era um veraneante de livros – era no mar e na praia que eu lia ferozmente. a partir dos sete anos, quando o meu pai me ofereceu uma história universal ilustrada, e passei o verão do Algarve a devorá-la, de trás para a frente. foi aqui que nasci para a leitura: o verão era uma promessa infinita de páginas e de um deserto aquático interior.
e foi nesta longa praia que é o Algarve que a minha poesia nasceu, num dia de Verão.
mal saberia eu que, num outro dia, aqui também decidiu nascer 333, na praia de S. Rafael, em Junho de 2008. e aqui contrario o dono desta casa, e meu mestre de escrita Manuel Teixeira Gomes, talvez o escritor preferido da minha família, quando diz, nos seus Regressos, contra ele mesmo falando: «Êsse canto do mundo é terra morta para artistas». (...)

Teixeira-Gomes, ainda: a minha avó e outros membros da família são viciados na sua obra. tive a sorte de guardar para mim os exemplares que foram da minha avó, com as linhas sublinhadas por ela, a terra do Algarve e o mar a abraçarem-se. como nestas linhas, das Cartas Sem Moral Nenhuma de Teixeira Gomes, que parecem ter sido escritas para mim, relatando o processo de luta que foi escrever este livro:
«Um estilo que queima, lavra lentamente, e consome-se, não deixando na memória mais do que cinzas, e até, fisicamente, na boca do leitor o saibo a cinzas.»
Isto o que pretendia: tive de me libertar da poesia, e lutar pela prosa, mas querendo que este livro guardasse toda a envolvência do mistério que é um livro a gravar-se na vida de alguém. tem alguns excessos de poesia, algum magma metafórico excessivo, mas que procurava que fosse o impacto de um livro a escrever-se na terra interior do leitor. E aí o que eu desejava agora que os leitores pudessem dizer sobre este livro – de novo Teixeira-Gomes:
«Um estilo que arde fàcilmente, mas embalsama, deixando na memória um resídio de perfumes muito activos, que não permitem esquecer o que ele diz.»

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Duplo Concerto

esta é a história do amor de um homem.
de como começa a formar-se a partir de um fantasma; como consegue reconhecer-se o seu peso de impossível a formar os seus ossos futuros. as junturas do amor, sempre feitas de eternidades cortadas.
podes subir, de todos os abismos: podes subir. música que vens do mais longe de mim mesmo, do ponto em que nunca fui, do corpo onde nunca serei. podes chegar, podes chegar. mas não podes passar. sou um violoncelo atirado das escarpas de jamais para rasgar o seu canto no último momento do tempo. eu canto uma janela, ferida de chuva por todos os lad
os. podes subir, acordes de um violino que vem de tão perto que podia ser eu.

12 de Novembro de 1997: esta música soa pela primeira vez na minha vida, e eu não posso ouvi-la porque sou eu. não a posso deixar prosseguir, passar, porque em cada acorde eu estou nu perante o universo inteiro. Brahms roubou-me cada segundo da respiração deste planeta: sou eu, há um momento vivo, morto ou ressuscitado em cada acorde, sou eu. o violoncelo que no primeiro andamento se mistura com o violino, sou eu a esperar o amor do amor. como é isto possível, que é tão mais real que esta pergunta. que é uma espécie de carne mais definitiva que o meu corpo.
a orquestra é o mundo, o que separa dois seres. o que me diz que o amor do amor, o amor que eu procuro ser, que eu sou em busca, nunca existe. é dessa fome que me alimento.
e acaba definitiva, por mais fusões que o violoncelo misture com o violino, por mais impossíveis superados, cortados, por mais momentos mais vivos que o cosmos. isto é a minha carne interior, este sou eu.
é a história de como um homem pode amar o amor e nunca o pode fazer. como se pode levantar todos os dias com o coração em todos os países do peito, e isso ser mais real do que existir.
mas posso sonhar no segundo andamento que isto seja possível. é demasiado irreal e por isso pode acontecer. o coração deflagra na possibilidade.
não passes: saber que existes é o único real possível. podes descer, música, do abismo onde vivemos. quando nos tocamos, faz luz em toda a morte.
o último andamento é irónico, mordaz, os gestos do depois. a morte no mundo: o banal, o esquecimento, o querer perder a pele.

Heifetz, Piatigorsky, Reiner: toda a rapidez excessiva desta música, o seu furor, a sua concentração anti-sentimental. A orquestra é real, peremptória, rápida, e os dois grandes Heifetz e Piatigorsky são líricos mas quase em contraciclo com a orquestra. Não há separações, há uma perfeição sobre a dor.
Furtwängler interessa por causa de Furtwängler: é a orquestra que surge quase directamente de Wagner e do destino a rasurar toda a obra. Terrível, mas não para primeira audição.
Mas a descoberta, a devastação, um jogo de fusões e fugas, está com Oistrakh e Rostropovich regidos por Szell. O maestro preciso e contraído dá lugar a um lírico agressivo, destruidor. Impossível de sair desta gravação inteiro.
é a história de como um homem pode amar o amor e nunca o pode fazer








segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

o temporal levou minha janela

Estive longe por causa das vindimas, mas aqui volto.
Dias atrás, uma ventada levou minha janela. Não era janela de casa, era de uma pequena casa no fim da propriedade, casa só de arrumações. Ali minha adolescência de livros e proibições cresceu por trepadeiras.
Vou lá pouco, hoje, a casa vai caindo. De vez em quando dou um jeito nela, mas a casa foi caindo porque a minha adolescência foi partindo. Sei que sente a falta de um rapaz que crescia nos seus muros para atingir o céu.
Na virada do milénio, não estava eu na quinta, me disseram que quase caiu.
Pois há dias, uma ventada grande levou minha janela. Era de madeira branca. Eu freqüentemente olhava por ela para ver se não vinha ninguém.
Ela caiu: eu já não espero ver ninguém me procurando quando eu faço o caminho para o futuro.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

JARDINS PARA O FIM DOS TEMPOS

Schubert, só depois dos trinta

Discutia há dias com um amigo, melómano mas não tão chato como eu, que Schubert era uma doença que só aparecia depois dos trinta. Ele também concorda: tem a ver com a compreensão de ritmos interiores, disse-me.
Schubert morreu aos trinta e um. Isso é irrevogável e não sei se alguma vez o mundo recuperará inteiramente disso (cito Piotr Anderszewski sobre Mozart).
De facto sempre ouvi Schubert. Mas não saía da trindade habitual, a Sonata D. 960, de que já falámos aqui nos “Jardins para o fim dos tempos”, as duas últimas Sinfonias, o Quarteto “A Morte e a Donzela”. E o resto era música, excelente, mas não rasgava os ouvidos do coração.
E subitamente, os trinta anos, e com eles as sonatas para piano por Richter. Aqueles tempos lentíssimos, de respirações longas, que se prolongam por praias suspensas, congeladas. Uma dor minuciosamente analisada, minuciosamente alargada.
Esta música não encena, não teatraliza, não arde para fora. É preciso estar perdido dentro de si mesmo para ser capturado por ela. Como os trinta: sabemos tudo o que foi para trás, sabemos muito provavelmente o que virá para a frente. Quando se sabe o caminho, aí é que tudo se perde, porque se pode derrapar por dentro. A infância reaparece, em outros (os filhos) ou em nós mesmos, porque a morte começa a dizer ao corpo – como diz o António Alvélos – que um dia vai chegar. É esta música do limite, este risco de som sobre o precipício: Schubert.
Ouvir “Gutte Nacht” de Winterreise (sobretudo por Hans Hotter, 1943): percebe-se como aos trinta se despede de tantas ilusões crescidas: essas que sabemos impossíveis mas que deixamos desenvolverem-se, e que caem desaparecidamente.
Ou o Andante do Trio Op. 100, a marcha fúnebre dos próprios sentimentos assassinados.
Ou o Quinteto para Cordas, pelo Hollywood String Quartet, e desejar que houvesse outro lugar para a alma mais fundo que o corpo.
Ou as últimas três Sonatas por Richter, as transcrições das canções por Sofronitsky ou Kissin, a Fantasia para Dois Pianos, os Impromptus - e perceber que Schubert verdadeiramente não é música, mas o movimento interior de um corpo a romper o mundo.
PS - Na imagem um Schubert mais novo, para não usar a mesma estafada e gorda representação de sempre.