
Volto a responder a José Miguel, que teve a simpatia de comentar o meu post anterior e de partilhar comigo e connosco a sua opinião. É precisamente este tipo de debate que faz falta no interior da Igreja e no nosso próprio país. Respondo pessoalmente, pedindo licença aos leitores do blogue por mais uma carta pública.
A sua resposta incide em três pontos: Verdade, Identidade e Igualdade. Refere que temos noções muito diferentes. Eu penso que é claríssimo que têm a mesma raiz mas – mais do que concepções – têm resultados diferentes. Sabemos o resultado de algumas dessas concepções. Acredito que o processo dos seres humanos é para o crescimento, a liberdade maior, para o «crescei e multiplicai-vos» que o Génesis metaforicamente aponta como destino.
A libertação de seres possuídos, demoníacos, no Evangelho é naturalmente a representação de problemas psíquicos, mas tem também um significado metafórico: representa igualmente seres tolhidos na sua vontade e pensamento. É porque Cristo consideraria que libertá-los, na sua passagem na Terra, era trazer a cada homem a urgência profunda de uma libertação integral da sua liberdade e do seu livre-arbítrio.
No seu comentário, José Miguel refere: «Há de facto na nossa cultura a tentativa de impor o pensamento único de que o bem está garantido pela autonomia da vontade e do pensamento. Tem o mérito de promover a saudável e necessária maturidade da consciência. Mas à custa da verdade sobre o próprio Homem condenando-o à escravatura do sentimento e do subjectivismo.»
Aqui paro, em pavor e espanto, e pergunto-me desde o primeiro homem: alguém é livre sem autonomia da «verdade e do pensamento»?!?! Centenas de filósofos podem responder-lhe da Grécia antiga até hoje. A autonomia da verdade e do pensamento: isso foi a luta de séculos que tornou o Ocidente o que é hoje. O processo não está terminado e deve ir mais longe: ou o pensamento, a democracia, a liberdade interior e política que obtivemos, é negativa? A fé de cada cristão, e a fé da Igreja, que como dizia o teólogo Hans Kung, é antes de mais uma relação de confiança, deve inspirar os outros seres a conquistarem mais liberdade. Mas eu acredito que mais liberdade gera mais libertação: e Deus quer o ser humano livre, para mais livremente se construir e poder encontrar Deus em todas as coisas. E por isso acredito que toda a pressão que a Igreja coloque em regular a sociedade é contraproducente. Acredito no crescimento da Humanidade. Acredito que as bases do Ocidente são sem dúvida dadas em parte fulcral pelo Cristianismo; mas também pela Filosofia, mas também pela História de supressão, colonização, genocídio que perpetramos, que começou noutros povos e passou pelo silenciamento do papel da mulher, por exemplo. Que todos estes aspectos devem – e estão a ser – assumidos e corrigidos pela Humanidade em crescimento. Esperamos que, por exemplo, a Cimeira de Copenhaga resolva cem anos de atentados à Terra que Deus criou.
Caminhar nessa consciência implicou a separação entre religião e sociedade. Acredito que o papel da Igreja neste momento não pode ser querer voltar a uma dimensão de controle sobre a sociedade e sobre um processo, mas manter-se como símbolo do essencial. E que deve acompanhar esse crescimento, começando por assumir que dentro de si mesma iniciou e manteve processos de exclusão. Já pedimos perdão aos Judeus, já pedimos perdão pelas Cruzadas, já pedimos perdão a Galileu: há um caminho notório que deve prosseguir. E gostaria que me dissesse onde encontra pensamento único no Ocidente hoje em dia. Se me diz que há um primado do ter sobre o ser, ninguém discorda; se me diz que há um excesso de consumismo, também. Mas caminho único? Não vê o processo que permite a cada ser agir mais livremente? Deus para mim encontra-se e multiplica-se em liberdade cada vez maior. É esse o significado da mudança interior dos Apóstolos antes e depois da Morte e Ressurreição.
«Crescei e multiplicai-vos»: o que Deus pediu a Adão e Eva. Sendo palavras numa zona alegórica da Bíblia, o Génesis – espero que não a considere literal – também elas estão revestidas da multiplicidade de sentidos. A relação do ser humano com a palavra de Deus é concreta e metafórica, é a “espada de dois gumes” de que falava o salmo: e é nesta metáfora que crescemos, subindo sentidos concretos mas mais altos. Não acredito que este significado possa ser literal: que Deus pretenda que o ser humano desenvolva o seu corpo apenas ao ponto de se poder reproduzir – tout court. Mas crescei interiormente, dentro de si próprios, sempre a procurar o absoluto em cada coisa, para serem altos interiormente. E depois disso, “multiplicai-vos”, «sendo tudo para todos»: a reprodução é interior, primeiro, para gerar muitas mais multiplicações, para fora, para trazer Deus a todas as coisas. Cabe ou não cabe aqui o amor entre dois homens ou duas mulheres? Ou entre uma mãe e um filho, dois amigos, um mestre e o seu discípulo? Todas as relações entre dois seres, do amor conjugal ao amor de amizade? Não estamos nesta Terra para crescer para o céu e multiplicá-lo em gestos? Parece-me óbvio que a imagem funciona melhor – em termos de construção metafórica – se reproduzir o símbolo donde nascemos, do amor entre um homem e uma mulher. Se a imagem fosse construída com a relação entre um homem e um tigre, ou uma árvore e uma esfregona, talvez não fosse tão poderosa. Mas arrogar-nos a tomarmos literalmente uma imagem é não crescermos em sentido. Se quisermos ser literais, e não historicamente informados, depois de milénios sucessivos de história dos homens sobre a Terra, não crescemos e muito menos nos multiplicámos.
Mas vamos atacar de frente o assunto que começou esta troca de opiniões: Levítico, capítulo 18, versículo 22: «Não coabitarás sexualmente com um varão; é uma abominação». É textual, está dito no Antigo Testamento. Mas antes, versículo 11 e seguintes, também se lê: «Não descobrirás a nudez da filha da mulher do teu pai, nascida do teu pai, porque é tua irmã. Não descobrirás a nudez da irmã do teu pai; é a parente próxima do teu pai. Não descobrirás a nudez da irmã da tua mãe, porque é a parente próxima da tua mãe. (…) Não descobrirás a nudez da tua nora; é a mulher do teu filho, não descobrirás a sua nudez. Não descobrirás a nudez da mulher do teu irmão; é a nudez do teu irmão.» Bom: milhões de seres sobre a Terra desde que Cristo fundou a sua Igreja são então abominações: milhões de seres em milhões de casamentos aprovados pela Igreja, celebrados na Igreja, sobretudo entre reis – e que a nossa Igreja promoveu e apoiou, em nome das mais (supostas) cristianíssimas intenções. Podia passar dois mil anos a citar casos, até na corte papal Bórgia. O Levítico não foi cumprido? Porque era metafórico? Onde é que Cristo no Evangelho proíbe a união entre dois homens ou duas mulheres? Ele, que se sentava e convivia com os excluídos? Mais do que sobre moral sexual, a Bíblia pulula de referências à usura. E o que têm os cristãos feito com os bancos? E a expulsão dos vendilhões do Templo, foi só uma fúria de Cristo ou lenha para se crucificar? Há gesto público mais afirmativo e devastador? O que quer isto dizer? Todos os dias me pergunto, e não vejo na História da Igreja, actual e no passado, um equivalente. Não será o momento, num cume de consumismo, que procuremos o significado disto dentro da nossa própria Igreja?
«Mas não se pode pretender que seja o único pensamento aceitável»: responde-me, quanto ao ponto de a psicanálise reforçar que a verdade que existe é a dos sentimentos de cada sujeito. Claro que toda a gente compreenderá que não será isso o pensamento único, ou viveríamos todos entregues aos delírios próprios (Santa Teresa foi considerada delirante pela hierarquia…): mas relembro-lhe as suas palavras anteriores, onde deve integrar estas, e não descontextualizá-las: «Reduzir a relação entre humanos ao sentimento afectivo que se nutre reciprocamente». Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Até porque a questão que começou esta nossa tão produtiva troca de opiniões é entre os sentimentos entre dois seres: sentimentos interiores, lutados, vividos no mundo, e por isso capazes de reproduzirem humanidade à sua volta. Repiso: mesmas concepções, resultados diferentes. Continuo, porém, a não compreender a sua argumentação. Permita-me citá-lo: «Por isso é abusivo deduzir que "o afecto recíproco trunca", mas pode-se reconhecer com honestidade intelectual que "a redução das relações entre humanos ao afecto que se nutre reciprocamente" trunca.» Ao ler as suas palavras, o Evangelho parece levantar-se inteiro para lhe responder. Mas a primeira frase que me surge é esta: «Quem não amar não pode conhecer Deus, porque Deus é amor.» (1 Jo 54,8). O afecto é entre dois seres – ponto. Ninguém fala em reduzir afecto: mas em vivê-lo plenamente, para «crescer e multiplicar».
E continuo sem perceber, e lamento, porque é que a liberdade civil de dois seres lhe parece tão nociva.
E por isso volto ao ponto em que iniciei: referia termos noções diferentes, dizia-lhe termos raízes iguais, mas as nossas concepções terem resultados diferentes. Acredito que o progresso do Homem com a separação entre religião e conhecimento gerou crescimento e liberdade. Acredito que aí está o «crescei e multiplicai-vos». Acredito que o ser humano é mais livre depois disso, para mais livremente encontrar Deus. Se me fala de concepções de vigilância e limitação do indivíduo, com tantos resultados desastrosos que isso provocou, então acredito que procuramos resultados diferentes; e lamentando muitíssimo que não partilha a mesma liberdade do que eu. A minha nasce, cresce e reproduz-se aqui: «Eu vim para que tenham a vida, e a tenham em abundância» (Jo, 10, 10).