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Para onde depois (reflexões na véspera dos 41)

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Londrices, II: as gémeas

Eram inseparavelmente iguais.
A debulhadora dedicada da inspecção de segurança à entrada da British Library não as separou. Na fila de centenas de pessoas que esperavam entrar, esta pesquisa gota a gota singularizou-as de entre a massa.
Volto a encontrá-las enquanto descem as escadas, uma inclinando-se na outra. Vêm rigorosamente de igual: uma camisola de gola alta de algodão, duas cores horizontais, preto cortando o vermelho da mesma forma inversa como elas eram inseparáveis. As mesmas calças pretas, os mesmos botins castanhos de freira, o mesmíssimo casaco castanho que traziam dobrado no braço esquerdo. Uma fala com o guarda do bengaleiro: "Oh, dear, so you want to trick us?". Não percebi como é que o pobre John, com cara de sono por serem 9:30 de um sábado, as queria enganar, mas respondeu com um sorriso e uma frase simpática. Mas distingo entretanto uma primeira diferença entre as manas: uma é a faladora e a outra a pensadora.
Volto a olhá-las antes de as perder de vista…

O dom do toque

uma manhã nunca, VI: Jerusalém de neve

Era impossível e sabíamo-lo.
Mas mesmo assim encontrámo-nos outra vez, dezassete dias roubados ao tempo que nenhum de nós tinha. Israel, um fim de Outubro que parecia nunca.
Ninguém contava o tempo mas ele rodeava-nos a cada abraço. Os dias minguavam como o fim do inverno.
A separação chegava antes de todos os minutos. Quando essa realidade começou a escorrer, seca como um dia de sol no deserto, pedi-lhe para irmos a Jerusalém.

O autocarro chegou à estação principal; e tivémos de andar durante meia hora, porque a paragem de eléctrico estava cheia de polícia. Um atentado tinha vitimado uma turista inglesa pouco tempo antes. Um frio na alma, e um vento gélido por fora.
Lembrei aquelas ruas que conheci no início da minha adolescência. De facto, ao percorrê-las então e agora através destas linhas, leio-as como as da minha mão: foi a minha primeira viagem, Israel em 1991, 14 para os 15 anos, quando deixei de ser criança e passei a ser um adolescente, ou talvez até um jovem adulto.  Talvez…

Crôuvicas de Bruxelas: o primeiro dia

Não há nenhum outro dia em Bruxelas como o dia em chega o calor. Não é tanto o calor mas a sensação luminosa de que o frio e o cinzento se foram embora, deixarão de ser regra. De repente, parece que a cidade salta dos rigores da neve e do cinzento para o verão, de um dia para o outro. Ramos de árvores esquecidas subitamente em flor, em cores múltiplas; calções e saias, camisas novas e curtas, braços e pernas felizes e nus onde antes havia corpos encasacados, esplanadas em todos os lugares a impedir ruas e rios, cafés que parecia nunca terem existido, parques sem um espaço. E namorados, a exercitarem-se em todas as línguas, com todas as línguas.  Bruxelas, que parece escondida e adormecida, sai para a rua com as suas trezentas cervejas, seiscentos restaurantes e bares de todas as nacionalidades, mil e duzentas novidades. E tudo corre: tudo está a correr de um lugar para o outro à procura do sol, à procura dos amigos, numa espécie de dança contra o tempo e à volta da luz, para ser tudo…

O que é o progresso? Parte II

A minha liberdade está em decidir não usar um smartphone? Em rejeitar usar uma rede social? Mais que isso, em procurar criar uma vida onde as interacções sociais, a gestão do tempo, os contactos humanos, a interioridade, é mais importante do que a "conectividade". Lutar pela minha liberdade interior: por não querer que nada a perturbe; que o meu tempo, a profundidade do pensamento, não sejam entrecortados pela tecnologia que deveria ser ferramenta em vez de ser obstáculo. Vários estudos têm provado que o nosso pensamento deixa de ser mais profundo, passa a ser mais imediato - como se pode ler aqui.
Por mim, começa hoje e aqui: vou deixar de usar o Facebook. Vou tirar o email do meu smartphone. E lentamente vou tentar deixar de o usar. Isso vai atirar-me para a idade média social, mas se os meus amigos não se adaptarem, lamento.
O progresso que quero para mim, e que quero criar no mundo, é de uma profundidade interior. Não de fuga, alienação, de falta de respiração interior…

Domingo absoluto

O impossível aconteceu: um homem ressuscitou.
Este dia quebrou o tempo ao meio: as rodas da engrenagem do tempo foram partidas pelo corpo de um homem, morto como um culpado, ressuscitado na sua natureza total de filho de Deus.
Não apenas voltou à vida, mas cumpriu um desejo antigo, inscrito no sangue de dezenas de gerações errantes: o filho de Deus veio à Terra, entregou-se à morte e trouxe a eternidade.
Nunca mais um minuto cego; nunca mais um céu vazio; jamais um percurso de vida que não possa esperar o sentido e a luz.
Todos os recomeços são possíveis - assim o grita para sempre este dia.