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Mensagens

a memória dos pulmões

Quando me mudei de Berlim para Bruxelas, nunca pensei que me faltasse a neve, que tivesse saudades de falar alemão, que a organização germânica se tivesse incrustrado em mim de formas que não esperava. As grandes saudades nas pequenas coisas. Mas houve uma coisa mais que não esperava que me faltasse, tão no centro do peito: o ar. Sim, houve um dia em que me faltou o ar.
Recém-chegado, depois de um dia fechado a trabalhar, saí do sótão pequeno e romântico onde vivíamos para apanhar um pouco de ar. Mas ao sair, as ruas pareciam apertar-se contra o meu peito; a estrada parecia pequena, estreita, desaparecendo. Entre as casas, uma rua de um único sentido pejada de carros estacionados; nem céu diante, nem passeio largo, pessoas a andar coladas a mim, lixo no chão. De repente, a estrada é uma miragem, as casas apertam-se umas contra as outras, as ruas são escuras; o caminho é um fio de ar, escasso. Falta-me o ar, não corre entre as casas apertadas, entre os pulmões esmagados, entre a memória…
Mensagens recentes

Jardins para o fim dos tempos: Sinfonia Nº1 de Walton

"Um coração instável sugando a cada passo", diz um poema de biofagia. O verso parece ter sido escrito para esta música, dança fantasmática e divisiva.
O primeiro andamento começa com uma entrada progressiva, um instrumento de cada vez, para criar uma tensão que Walton aguenta com intensidade psicológica até ao final. As cordas são tormentos, os sopros montanhas interiores que crescem a cada passo, os tímbales um coração esmagado pela sua sorte. Abismos de cordas, tímbales e metais levantam-se numa espécie de ondas, uma paisagem devastada pela dor. O tema recursivo das cordas regressa como um tema do destino ou um tormento que por um lado assusta, por outro lado reforça e supera.
Ouvir esta música pela primeira vez foi uma dupla surpresa: porque nunca a ouvi antes? Walton estava para mim relegado para a categoria dos compositores britânicos do século XX escolares e à sombra do génio de Benjamin Britten. Nada mais errado. Lembrava-me também dos retratos dele, fotografados por…

Uma floresta pelo correio

O melhor momento do mês chega pelo correio: o novo exemplar da revista "Diapason". Nesse dia, o tempo pára: eu volto à minha adolescência romântica, onde o dia são bosques de sons, recordações afundadas e elevadas entre música, ficar perdido ou achado por uma peça musical destruir a estrutura do dia nas suas fundações.
Mas pára não apenas porque uma parte de mim, passado mas eterna, emerge; é também ficar mergulhado apenas em música, na descoberta de obras novas ou sobretudo na redescoberta de obras que conheço bem a partir de novas versões.
A "Diapason" não traz apenas críticas aos discos novos, e põe-me a fazer contas entre o "não devia", "não posso" e "não passo", involuntariamente caindo mais para o último do que os primeiros. Traz também um disco gratuito com selecções dos melhores álbuns criticados (os que ganharam o elogio unânime dos críticos, o "Diapason d'Or"), e desde 2012 um disco feito pela redacção, reeditando…

Uma manhã nunca, II: Bergmansstrasse

Ainda guardo a fotografia.
É tão contrária à memória que tenho. Uma noite infindável de encontros, planos sobrepostos sobre abismos e luzes de mãos dadas. Na fotografia, uma mão sobre o sorriso, os olhos fechados. Uma fuga, uma fuga. Saí depois para um lugar de onde nunca mais fomos os mesmos. Uma semana escrita em silêncio. A minha amiga U. dizia-me: "não responder é mandar silêncio". 
Soube depois que sim, que a fotografia revelava uma mentira, que havia outra pessoa, que tudo aquilo não tinha passado de um divertimento curioso.
Não há sorriso, quase não há olhos. Mas para mim, todas as vezes que vi aquela fotografia, houve também um percurso. Dizia-me: não tirarei os olhos desta fotografia até que eu passe da dor para a recordação de tudo o que se passou antes.
Fazer de todas as manhãs de dor uma escada. Mehr licht, disse Goethe antes de morrer: mais luz.

Vira o disco e não toca o mesmo

Continuo a comprar CDs, a seguir as saídas de novos álbuns e a frequentar lojas de discos - as poucas que ainda existem. Esse é um dos maiores prazeres da vida, para mim, que nenhuma loja online ou sistema de downloads poderá alguma vez compensar. Sobre isso falarei em breve.

Mas não passei à lógica do download por vários motivos.
Em primeiro lugar, porque gosto do objecto CD, gosto da ideia de um album que posso procurar nas estantes, abrir, ler, e cuidar. E porque tenho prazer em ter esse objecto. Sou proprietário dele, como a sua existência física me comprova a cada instante. Tem uma história comigo, como tantos outros objectos que me acompanham pelo meu trajecto pelo mundo e pelos dias; crescemos juntos, envelhecemos juntos, subimos juntos.
Os discos ficam a fazer parte de uma biblioteca física, minha. Posso aceder-lhes quando quiser. Não através de uma plataforma onde de facto não os possuo, mas apenas tenho um direito de utilização.
Mas, por outro lado, a sua existência física re…

Do deserto na escrita

Cinco anos a tentar escrever. Pouco, quase nada, grãos de areia. Distância, de tudo o que foram os textos do passado, os hábitos de escrita, as ligações interiores e as feridas que serviam de chão e de pergunta.
Cinco anos de viagem infértil que me gerou hoje. Mas há um processo interior, mais longo e largo que apenas o facto de não produzir nada de concreto, que é ele mesmo um resultado, uma escada, uma espécie de escrita para dentro, e que não é o tema deste texto.
Apesar de haver técnicas, que aprendi e ensinei, que permitem atravessar essa fronteira, havia um um contínuo desacerto entre projecção e realidade, entre sonho e processo; pesava sempre a pressão de um esforço permanente; e uma inevitável comparação com outros momentos do passado em que o processo criativo foi uma descoberta, ou mesmo uma luta mas fértil entre ideia e concretização.

De tudo isto, tiro uma imagem de quando visitei o Negev, mais ou menos o que se vê nesta fotografia: a beleza do nada. Talvez o leitor imagina…

desencontradamente casa

São seis da tarde e está tão escuro que parece meia-noite. Não chove mas há um vento frio repetitivo de mãos dadas com uma chuva intrometida que se mete entre os pensamentos e os passos. Entro na loja indiana perto de casa para comprar o que preciso para fazer uma sopa dal. Este tempo pede aquela combinação forte de especiarias e gengibre, vitaminas e viagem sobrepostamente.  O dono, um indiano simpático de cinquenta anos, está à entrada a pôr uma caixa de compras no trolley de uma mulher escandinava, sorridente e apressada. Sai contornando uma menina indiana que chora em inglês; ela agarra a origem provável da discussão, a trotinete que quer usar para viajar entre os armários da loja pequena e pejada. Volto-me para procurar o que quero, mas não me posso mexer muito. A minha mochila está nas minhas costas, enorme de livros por causa de um dia de aulas. Cada vez que me mexo, cai uma coisa na loja. "Attention", diz-me o dono não entendo se em francês ou inglês, depois de apanhar…