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Mensagens

Irregularis

Em Dezembro de 2017 retomei este blogue, depois de um ano de pausa. Prometi mantê-lo activo durante um ano pelo menos: e cá estive todas as quartas e domingos.
Um projecto de escrita na fase final leva-me a suspender o blogue sine die. Mas desta vez prometo ir postando uma crónica de vez em quando, ao sabor dos dias. O blogue continuará, em modus irregularis.
Agradeço aos leitores, e agradeço à vida que continua a surpreender e a criar mais vida, apesar dos tempos escuros em que navegamos.
Até sempre já.
Mensagens recentes

Cinco álbuns de 2018, parte II

Partilho ainda dois álbuns que me ajudaram a atravessar 2018.

IV: Saint-Saens, concerto Nº5
Saint-Saens tinha ficado para mim reduzido ao concerto para violoncelo, inventivo e inquieto, ao romantismo alambicado do "Cisne", ao romantismo tardio da "Sinfonia com Órgão". Outros caminhos levaram-me a descobrir os concertos para piano e orquestra, que não são Beethoven mas não precisam de ser: têm uma surpresa e um encanto finissecular.
Este em particular, que parece sair do século XIX para chegar ao século XX como Álvaro de Campos no "Opiário", não fosse o concerto "egípcio" e baseado numa canção ouvida por Saint-Saens cantada por um gondoleiro no Cairo.
Para nova surpresa, percebi que não há muitas gravações do concerto, mas as que existem são de grandes pianistas que se apaixonaram pela obra. Uma delas é a de Richter e Kondrashin, um trovão gelado moscovita, que marca com uma surpresa. Oriente e ocidente, fim de século e melodias quebradas, como …

A lição de Macron

"Evita escolher ministros muito novos, pois sobre eles recai o ódio do povo." A frase foi mais ou menos proferida assim por uma rainha de Portugal, acabada de cair viúva, aproveitando os últimos momentos antes de cair na sombra do luto e de rainha-mãe e regente: Maria Ana de Áustria, arquiduquesa austríaca, mulher de D. João V. Falava com o filho, futuro D. José, sugerindo-lhe também que escolhesse como ministro aquele que viria a ser o mais famoso ministro português: Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal. A frase, dita num paço destruído por um terramoto por uma mulher esquecida pela história a um rei quase inexistente, numa tarde de calor de 1750, cai com perfeição mais de 250 anos depois à situação de Emmanuel Macron, presidente francês há menos de dois anos no poder.
Macron não percebeu que a sua juventude e a sua suposta independência partidária foram para muitos o principal alento para o apoiar. Criou um novo movimento de cidadãos, e esse movimen…

Cinco álbuns de 2018, parte I

Ouvimos música através de plataformas, através de computadores, cada vez mais. E isso faz com que o álbum, colecção meticulosamente estudada e pensada como um todo, perca a sua relevância.
Eu continuo a olhar cada um como uma entidade única, livro de sons, árvore de seu próprio chão e céu.
Partilho os que me acompanharam em 2018; nem todos são deste ano, ou saíram este ano, mas foram o corredor dos meus dias.

I: Brahms: Sinfonia Nº2, Aberturas
Todos os perfumes de jardins, lagos e florestas da Alemanha, numa viagem a bordo de uma orquestra húngara. Sons e melodias vertem-se como luz nova.
Nunca a 2a de Brahms foi tão pastoral e tão revivificante. Dei por mim a ouvi-la e a dirigir os caminhos de parques, avenidas de carros, planícies de comboios. Houve mesmo momentos em que me pareceu ver o próprio Brahms, mãos atrás das costas, a maravilhar-se com o outono vienense.

II: Dvorák: Quintetos para Cordas
Um dos presentes constantes da música clássica é ouvir uma nova interpretação de uma o…

"Onde um Menino nasce para a morte"

Coletes contra a austeridade

O cansaço com a austeridade passou a estar nas ruas, a não calar a sua voz, a parar o governo de um país em vez de ser parado por ele.
São quase duas décadas de esforços e sacrifícios, aceitando que era temporário, admitindo cortes parcelares que se tornaram totais, permitindo recuos de direitos para bens maiores que se tornaram males enormes.
Os povos da Europa estão cansados de duas décadas de austeridade que só pioraram as condições de vida concretas, os direitos que as protegiam, o Estado que as garantia - e o futuro.
Os gilets jaunes serão apenas uma parte de algo muito maior, como é o voto de protesto na extrema-direita. A culpa disto: décadas de governos centristas e direitistas que permitiram cortes para o enriquecimento das grandes empresas, e com eles contínuos golpes na vida das famílias.
Claro que com todos estes movimentos se juntam manipulações de extrema-direita e arruaceiros que transformam um protesto pacífico em violência - e que correm o risco de apagar um movimento…

Lisboa descartável e descartada

Percebi da última vez que já não valia mais a pena.
De cada vez que fazia o meu passeio por Lisboa, pela minha Lisboa onde tinha vivido, pelos meus lugares geográficos sentimentais, que o desacerto era maior. As ruas eram as mesmas, e os edifícios, e até as distâncias; ou não: talvez agora mais medidas por hordas de turistas. Sim, a ligação entre eu passado e eu presente, o fluxo da memória entrecortado por mais memórias sobrepostas com um ruído perpétuo de gente tirando as mesmas fotografias, fazendo as mesmas conversas, tornando a cidade plastificada, repetível, esquecível. Lembrava-me do meu avô paterno, engenheiro, que ia a Lisboa "ver as obras" quando passava uns dias em nossa casa, vindo do Funchal. Para ele a cidade era sempre uma coisa dinâmica, a renovação e as obras uma necessária mudança, parte do coração vivo das coisas. Admirava isso. Mas não esta Lisboa que agora vejo, descartável e descartada. Continuo, a cada vez que vou a Lisboa, e a cada ano a que somo vive…

A sueca dormiu com o inimigo

E a sueca caiu.

Mesmo antes de me mudar para Bruxelas, seguia a política belga com muito interesse. Na Bélgica pode-se ver em detalhe, quase em microcosmos, o que se passa na Europa e no mundo em grande escala. Ao longo dos séculos, toda a gente passou pela Bélgica, como diz uma amiga minha; ninguém fez nada pela Europa sem passar por aqui. De Júlio César a Napoleão, sem falar nas duas guerras mundiais, a Bélgica é ponto de passagem. As rotas não são apenas de exércitos, são de ideias e de conflitos que aqui aportam, atravessam, se confrontam. Também de comércio, que fez de Bruxelas um ponto de distribuição de mercadorias que vinham pelo mar até Ostende ou Antuérpia e desciam pelos rios (pelos vários "beek" que dão nome às muitas comunas de Bruxelas) até chegar ao Luxemburgo, à Lorena, a Aachen, pela Europa dentro.  Aqui também se cruzam e confrontam duas velhas fronteiras: a do império romano, com a sua marca linguística latina contra a do mundo germânico. País do tamanho …

Crôuvicas de Bruxelas: viagem de inverno

Esperava o autocarro ao mesmo tempo que eu. Ou melhor, não esperava, porque o veículo chegou impante para a felicidade de uma outra senhora ferozmente zangada com a vida e os seus arredores mais remotos. A cara era geométrica, as rugas aguçando os traços rápidos de quando foi desenhada. O cabelo grisalho e muito ondulado reforçava a juventude dos olhos, brilhantes e quase assustados. Subiu para o autocarro, o vento percursor de chuva de um dia outonal de Julho ondulando-a como o cabelo que lhe caia para o rosto. Sentou-se perto da porta, agarrada a um grande livro azul. Eu nunca me sento, fico de pé e vejo a cidade ou as pessoas. Bruxelas é um livro largo, tão cinzento de capa como fundamente escondido; é preciso ir depois da aparência para o perceber, estrada onde todos passam e ninguém quer ver. Baixou o livro, enquanto olhava para o palácio real. Uma família de turistas tirava fotografias a simular que batia à porta do rei. Noto que tem um nome na lapela, daqueles que no…

Crónicas de Berlinzâncio: hibernatio

Despedia-me da rua sabendo que nunca mais nos voltaríamos a encontrar. Poderíamos um dia voltar a ser o mapa e os pés um do outro, mas não a mesma geografia.
Tinha nevado e as árvores estavam cobertas de neve, com sol. Soou a regresso, a uma hibernação -  como quando uma memória se fixa, se guarda dentro, para não desaparecer mais.
Hibernatio, hibernação. Agora percebo, por causa do frio, da neve, de a própria natureza ficar coberta de um manto branco, pacífico, hiber, do inverno. Mas natio vem de nascer. E é isso que tem acontecido comigo - nascer de novo. Pela solidão, pelo espelho tremendo que Berlim é para mim, interiormente reflectindo-me em sítios interiores onde não quero ser e onde não queria estar, e no seu oposto. Mas sempre com os pés nesta terra inquieta, nova, imparável.
A memória acorda, agora, dessa despedida de há cinco anos, quase seis. E o mundo parece gelado, de tal forma conteúdo e imagem se transformaram na pele mais densa; na casa; no corpo.

O rapto de Europa

A História começou com um rapto de três mulheres - uma delas, Europa. Bom, não a História mas as Histórias de Heródoto. Se a considerarmos como o primeiro grande livro de História do mundo, depois de tantos outros onde se inspirou e que agora são apenas ecos, então a História começou com Heródoto e com três raptos. Por mais que tenha lido o início, espanto-me sempre com o momento, simples e despretensioso, em que depois de duas páginas de povos, actos, nomes e raptos, Heródoto explica ao que vem: "humanos e prosperidade nunca passam muito tempo um ao lado do outro". Há 2500 anos, já Heródoto tinha compreendido que o conflito é a tentação do homem. A Europa vive há setenta anos com paz. Nenhuma guerra devastou o continente como parece ter sido marca da sua história desde tempos imemoriais. Isso deve-se à União Europeia. Com todas as dificuldades e falhas do modelo europeu - e um certo modelo financeirista deste modelo europeu, mas isso é outra conversa - esse conflito foi al…

O que nunca deixou de ter sido, II:

Ele não compreendia a máquina de café.
- Mas a máquina está em Inglês, e estamos a falar Inglês - disse eu, não muito simpático.
- É a máquina que eu não compreendo, não é a língua da máquina.
Pareceu-me que ele tinha procurado um pretexto para falar com alguém. Estávamos no hall da biblioteca nacional austríaca, em Viena, e os outros leitores entretiam-se com conversas reais, telefónicas ou imaginárias. Deve ter-se sentido sozinho. Eu não me apetece falar com ninguém nas pausas das bibliotecas, só quero mesmo andar. Tenho memórias de quando fumava, a pausa toda gesto ardido, ar frio e sabor áspero, uma conversa entre o interior dos pulmões e o choque do frio no rosto. Passeio, vou lá fora cumprimentar a cidade e volto, as pernas dobradas há tanto precisam de ar. Mas o homem continuava ali, sentou-se, eu a comer um Napolitaner, ele a conversar infatigavelmente sobre a tese que escrevia sobre os Balcãs. Era bósnio, estava em Viena a fazer investigação, era pouco tempo, sentia-se saído…

o parafuso de ferro

Já é automático. Durante anos não foi. O automatismo custa: dois anos, um e meio deles durante cinco horas por dia. Sentia que me tiravam o cérebro às oito da manhã, o martelavam incessantemente durante cinco horas, e o voltavam a pôr no lugar. Ou não bem. Talvez seja esse o uso do cérebro - nunca estar bem no mesmo lugar. E quando começava a conseguir balbuciar, pára tudo.  Falo da minha aprendizagem de alemão, quando vivia em Berlim. Não acredito tanto no "burro velho não aprende línguas" mas mais na surpresa que é perceber como é a forma como aprendo; e depois disso, perceber como o método de aprendizagem de cada um pode ficar enferrujado.
Mesmo tendo trocado o alemão pelo francês como língua diária, ele continuou lá: os seus magníficos e ultra-resistentes parafusos de ouro mantendo ligações distantes no meu cérebro. E eis que a vida me levou a aprender Neerlandês. Ao início, parecia fácil: o alemão ajudava-me a compreender muito. Mas depois, o caos: assim que abri os lá…

A UE, essa solução para os britânicos

O suposto acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia não será o fim da guerra interna que atravessa o país. Boris Johnson já veio dizer que o acordo faz do Reino Unido um estado vassalo e que nunca em mil anos o Parlamento foi chamado a votar algo assim. O acordo, mesmo sendo aprovado por ambas as partes, continuará a dividir os partidos e os cidadãos, e a UE usada por populistas internos como responsável por todos os males desde a peste negra.
A situação revela um traço mais singular do próprio Reino Unido como tal. Escócia e Inglaterra (com Gales agrafado) viveram sob o mesmo rei desde a morte de Elisabeth I. Um conflito anti-católico uniu as duas partes sob James I, a protecção do Parlamento sob Charles I, que levaram à morte deste e à destituição de James II por ambos (Catolicismo e Parlamento). Unidos finalmente como Reino Unido no "Act of Settlement" de 1701, cedo foi preciso encontrar inimigos externos (os católicos ingleses continuaram a servir de bode exp…