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Mensagens

Votar no meu bairro na Europa

No final da aula de Neerlandês, o R., o meu professor, diz-me: "Sabes como é importante votar nas eleições comunais". Agradeço-lhe, dizendo que fui provavelmente o primeiro cidadão a inscrever-se, ainda era Março e os funcionários da Comuna nem certos estavam de eu o poder fazer tão cedo. Também eu perguntei aos alunos nas aulas, espantando-me da informação e consciência de tantos. Estaciono a bicicleta. Tenho de ir tratar de burocracia. Vou a pé até ao cimo da avenida. O semáforo fecha. Há um velhinho de bengala e boina basca à espera. Chama-me. - Jeunehomme, vai atravessar a rua? - Sim. - Importa-se de me ajudar a atravessar? Ora bem, vamos escolher um braço: eu sou canhoto. Pode dar-me o seu braço esquerdo e eu dou-lhe o direito? Faço o que me pede. Noto que traz um saco de sarapilheira com uma fotografia dele e um número. É candidato. Pergunto-lhe. - Sim, sim. Sou o número 29 da lista do CdH (partido de centro-direita, humanista). Sou o mais velho de Etterbeek. Tenho oi…
Mensagens recentes

Eu posso ser o migrante de amanhã

Custa um minuto a ler a petição que encontra aqui e que se chama "Por uma Europa acolhedora". E custa outro ler o resto desta publicação.
Já pensou alguma vez o que leva uma pessoa a tornar-se migrante? Ter um tom de pele diferente, amar uma pessoa do mesmo sexo, defender os seus direitos ou dos seus irmãos, ter uma opinião contra-corrente, querer exercer o seu direito de votar. Nada de muito complicado, portanto: o que significava ser um cidadão há meses atrás, e que agora já não é o "novo normal".
E acontece num minuto: quando um fascista é eleito presidente nos Estados Unidos; quando o sistema financeiro quebra, deixando os desfavorecidos mais desfavorecidos; quando um país é ocupado; quando alguém decide rasgar tratados, direitos e garantias. Os últimos dois anos mostraram-nos isso: com o Brexit, a eleição de Trump, as reviravoltas legislativas na Hungria e na Polónia, a invasão da Crimeia. E vão mostrar ainda mais, dentro de meses - se se eleger um presidente…

A bestialidade que grassa

O mundo está ao contrário na América.
Quem pôde ouvir Christine Blasey Ford expor uma ferida antiga, à frente de estranhos, num ambiente hostil, divulgada por todo o planeta; e interrogada - por outra mulher - como uma mentirosa, e pensar que se tratava de um comité de um Senado, a casa que representa os cidadãos, o garante de um estado Democrático? Quem poderia pensar que uma mulher expunha assim a sua vida, gratuitamente, apenas para perturbar a vida de um homem? E não de um homem qualquer: de um homem que se candidatava a um lugar onde representa a constituição, que por ela deve velar, que deve representar os valores do país? Nem quero comentar o discurso em resposta, do Juiz Kavanaugh. Nem da direita conservadora e religiosa que veio defendê-lo - perante uma mulher indefesa que veio apenas, com um sacrifício mortal, falar da verdade. E que recebeu, com isso, ameças de morte, foi separada da sua família, e como coroa de glória, foi troçada pelo próprio Presidente dos Estados Unido…

Uma expandida, outrada manhã

Uma manhã larga, com cheiro fresco a relva, prados sucedendo-se a prados, os olhos a correrem a descobrir o sol. Era assim que queria esta manhã: expandida, desdobrando-se, céu e campos a desmedirem o dia.
Uma manhã que não fosse minha. Que não fosse deste corpo, da memória destes olhos, do alcance dos pés ou das memórias - que fosse mais alta que eu. Uma manhã que fosse de outro ser, mas que esse ser fosse eu.
Uma sensação total e toda estrangeira, intacta e toda: onde eu pudesse ser mais além deste feixe de ossos e carne, tudo lugares que conheci e que me limito. Onde eu pudesse ser o começo, os astros desmesurando-se, a vida nova e inteira: uma manhã, correndo para o sol, a extensão plena e outra.

(para a Cuenca; e para a Claudia, o Miguel e o Nemo)

O céu como água (Edimburgo)

Repost: "Com que moeda pagarei a vida?"

Antes da música, a figura: filho de arqueólogos, estudou música muito cedo. Em adolescente, passeava pela cidade com uma cópia dos quartetos de cordas de Beethoven no bolso. Começou a compor, e estreou-se como maestro aos vinte anos. Veio o III Reich. Muitos músicos saíram da Alemanha por motivos óbvios, Furtwängler ficou. Há numerosos episódios da sua resistência silenciosa e concreta, como a chamada telefónica para as autoridades quando descobriu, que os músicos judeus da orquestra não estavam num ensaio. «Ou eles vêm ou eu vou», contaram testemunhas da cena.

(Continue a ler aqui).

Recomeçar (setembro de sempre)