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Mensagens

A sueca dormiu com o inimigo

E a sueca caiu.

Mesmo antes de me mudar para Bruxelas, seguia a política belga com muito interesse. Na Bélgica pode-se ver em detalhe, quase em microcosmos, o que se passa na Europa e no mundo em grande escala. Ao longo dos séculos, toda a gente passou pela Bélgica, como diz uma amiga minha; ninguém fez nada pela Europa sem passar por aqui. De Júlio César a Napoleão, sem falar nas duas guerras mundiais, a Bélgica é ponto de passagem. As rotas não são apenas de exércitos, são de ideias e de conflitos que aqui aportam, atravessam, se confrontam. Também de comércio, que fez de Bruxelas um ponto de distribuição de mercadorias que vinham pelo mar até Ostende ou Antuérpia e desciam pelos rios (pelos vários "beek" que dão nome às muitas comunas de Bruxelas) até chegar ao Luxemburgo, à Lorena, a Aachen, pela Europa dentro.  Aqui também se cruzam e confrontam duas velhas fronteiras: a do império romano, com a sua marca linguística latina contra a do mundo germânico. País do tamanho …
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Crôuvicas de Bruxelas: viagem de inverno

Esperava o autocarro ao mesmo tempo que eu. Ou melhor, não esperava, porque o veículo chegou impante para a felicidade de uma outra senhora ferozmente zangada com a vida e os seus arredores mais remotos. A cara era geométrica, as rugas aguçando os traços rápidos de quando foi desenhada. O cabelo grisalho e muito ondulado reforçava a juventude dos olhos, brilhantes e quase assustados. Subiu para o autocarro, o vento percursor de chuva de um dia outonal de Julho ondulando-a como o cabelo que lhe caia para o rosto. Sentou-se perto da porta, agarrada a um grande livro azul. Eu nunca me sento, fico de pé e vejo a cidade ou as pessoas. Bruxelas é um livro largo, tão cinzento de capa como fundamente escondido; é preciso ir depois da aparência para o perceber, estrada onde todos passam e ninguém quer ver. Baixou o livro, enquanto olhava para o palácio real. Uma família de turistas tirava fotografias a simular que batia à porta do rei. Noto que tem um nome na lapela, daqueles que no…

Crónicas de Berlinzâncio: hibernatio

Despedia-me da rua sabendo que nunca mais nos voltaríamos a encontrar. Poderíamos um dia voltar a ser o mapa e os pés um do outro, mas não a mesma geografia.
Tinha nevado e as árvores estavam cobertas de neve, com sol. Soou a regresso, a uma hibernação -  como quando uma memória se fixa, se guarda dentro, para não desaparecer mais.
Hibernatio, hibernação. Agora percebo, por causa do frio, da neve, de a própria natureza ficar coberta de um manto branco, pacífico, hiber, do inverno. Mas natio vem de nascer. E é isso que tem acontecido comigo - nascer de novo. Pela solidão, pelo espelho tremendo que Berlim é para mim, interiormente reflectindo-me em sítios interiores onde não quero ser e onde não queria estar, e no seu oposto. Mas sempre com os pés nesta terra inquieta, nova, imparável.
A memória acorda, agora, dessa despedida de há cinco anos, quase seis. E o mundo parece gelado, de tal forma conteúdo e imagem se transformaram na pele mais densa; na casa; no corpo.

O rapto de Europa

A História começou com um rapto de três mulheres - uma delas, Europa. Bom, não a História mas as Histórias de Heródoto. Se a considerarmos como o primeiro grande livro de História do mundo, depois de tantos outros onde se inspirou e que agora são apenas ecos, então a História começou com Heródoto e com três raptos. Por mais que tenha lido o início, espanto-me sempre com o momento, simples e despretensioso, em que depois de duas páginas de povos, actos, nomes e raptos, Heródoto explica ao que vem: "humanos e prosperidade nunca passam muito tempo um ao lado do outro". Há 2500 anos, já Heródoto tinha compreendido que o conflito é a tentação do homem. A Europa vive há setenta anos com paz. Nenhuma guerra devastou o continente como parece ter sido marca da sua história desde tempos imemoriais. Isso deve-se à União Europeia. Com todas as dificuldades e falhas do modelo europeu - e um certo modelo financeirista deste modelo europeu, mas isso é outra conversa - esse conflito foi al…

O que nunca deixou de ter sido, II:

Ele não compreendia a máquina de café.
- Mas a máquina está em Inglês, e estamos a falar Inglês - disse eu, não muito simpático.
- É a máquina que eu não compreendo, não é a língua da máquina.
Pareceu-me que ele tinha procurado um pretexto para falar com alguém. Estávamos no hall da biblioteca nacional austríaca, em Viena, e os outros leitores entretiam-se com conversas reais, telefónicas ou imaginárias. Deve ter-se sentido sozinho. Eu não me apetece falar com ninguém nas pausas das bibliotecas, só quero mesmo andar. Tenho memórias de quando fumava, a pausa toda gesto ardido, ar frio e sabor áspero, uma conversa entre o interior dos pulmões e o choque do frio no rosto. Passeio, vou lá fora cumprimentar a cidade e volto, as pernas dobradas há tanto precisam de ar. Mas o homem continuava ali, sentou-se, eu a comer um Napolitaner, ele a conversar infatigavelmente sobre a tese que escrevia sobre os Balcãs. Era bósnio, estava em Viena a fazer investigação, era pouco tempo, sentia-se saído…

o parafuso de ferro

Já é automático. Durante anos não foi. O automatismo custa: dois anos, um e meio deles durante cinco horas por dia. Sentia que me tiravam o cérebro às oito da manhã, o martelavam incessantemente durante cinco horas, e o voltavam a pôr no lugar. Ou não bem. Talvez seja esse o uso do cérebro - nunca estar bem no mesmo lugar. E quando começava a conseguir balbuciar, pára tudo.  Falo da minha aprendizagem de alemão, quando vivia em Berlim. Não acredito tanto no "burro velho não aprende línguas" mas mais na surpresa que é perceber como é a forma como aprendo; e depois disso, perceber como o método de aprendizagem de cada um pode ficar enferrujado.
Mesmo tendo trocado o alemão pelo francês como língua diária, ele continuou lá: os seus magníficos e ultra-resistentes parafusos de ouro mantendo ligações distantes no meu cérebro. E eis que a vida me levou a aprender Neerlandês. Ao início, parecia fácil: o alemão ajudava-me a compreender muito. Mas depois, o caos: assim que abri os lá…

A UE, essa solução para os britânicos

O suposto acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia não será o fim da guerra interna que atravessa o país. Boris Johnson já veio dizer que o acordo faz do Reino Unido um estado vassalo e que nunca em mil anos o Parlamento foi chamado a votar algo assim. O acordo, mesmo sendo aprovado por ambas as partes, continuará a dividir os partidos e os cidadãos, e a UE usada por populistas internos como responsável por todos os males desde a peste negra.
A situação revela um traço mais singular do próprio Reino Unido como tal. Escócia e Inglaterra (com Gales agrafado) viveram sob o mesmo rei desde a morte de Elisabeth I. Um conflito anti-católico uniu as duas partes sob James I, a protecção do Parlamento sob Charles I, que levaram à morte deste e à destituição de James II por ambos (Catolicismo e Parlamento). Unidos finalmente como Reino Unido no "Act of Settlement" de 1701, cedo foi preciso encontrar inimigos externos (os católicos ingleses continuaram a servir de bode exp…

o que nunca deixou de ter sido, I: a timidez consigo mesma

Despedimo-nos depressa. A noite entornava-se de frio, os gestos ficavam estranhos, gastos depois de muitas cervejas, cigarros; e o cansaço de tantas paisagens emocionais que fizemos falando juntos, os pés enlameados disso, dessa espécie de viagem e encontro - sem fuga. Eu não tinha nada para lhe dizer depois de uma noite assim, ao contrário do tempo; e ela ainda menos, talvez subitamente tímida mas não comigo. Uma espécie de timidez que só encontrei na Dinamarca, uma timidez dela consigo mesmo. A taberna do canto no meio da Bergmannstrasse parecia agora cortar a cidade a meio: três da manhã  de um sábado onde faziam menos dez graus, uma neve escassa e rala, já suja, os meus gestos frios e os dela estranhos.  Não havia números para trocar, propostas para fazer, futuros para combinar: nós não éramos os gestos seguintes um do outro, e nem os queríamos. Não era sexo o que nenhum de nós queria um com o outro a seguir, ou mesmo nunca, nem ao início. Mas saímos com a sensação de que saíamos…

o toque mais antigo

Pesada de infinito, mas suave; um toque nas mãos, mas pulsante. Uma forma de acordar quando não estamos em sono - mas afinal o mundo é que se revela suspenso, preso, e a realidade é toda ela interior. É assim que a poesia chega. Muito próxima de um murro, música ou memória; muito longe de um voo, mais de uma chegada inteira. Tão desenho como música, tão canto como lâmina, nunca consegui imaginar a poesia como serviço de um ego. É algo que precisa da minha vida e da minha experiência como uma espécie de caixa de ressonância, eco, energia, mas não serve para me servir. Um esquecido de si mesmo, apenas instrumento, orquestra - assim um poeta. Escrevo estas linhas quando há mais de dez anos não termino um livro de poesia. Poemas e ideias de ciclos de poema chamaram-me e senti que não era ainda o ser suficiente para eles. Guardo-os esperando que cada dia me faça crescer para os servir. Um velho barqueiro núbio trauteou uma canção numa língua perdida enquanto Saint-Saens descia o Nilo: guar…

O punho da escrita

Chegou o momento de falar de um tema que tenho evitado, que tenho guardado para mim - porque chegou o tempo em que cada acto tem de ter uma consequência larga, um eco mudador, uma ressonância para o mundo. 
A arte não é entretenimento. Essa normalização da arte como divertimento é uma operação de um certo capitalismo que pretende precisamente controlar - e apagar - a função essencial da arte. Fazer da pintura divertimento de fim de semana, do romance consolo de férias, da música indústria para tapar mentes, da poesia rodapé de imagens nas redes sociais: este é o meio, conhecido há séculos, aperfeiçoado na Europa pré-segunda guerra mundial. "A cultura agora imprime o mesmo selo em todas as coisas. Filmes, rádio e revistas criam um sistema uniforme como um todo e em todo o lugar. Mesmo as actividades estéticas de opostos políticos são uma só na sua obediência entusiástica ao ritmo do sistema de ferro." A citação de é Theodor Adorno e Max Horkmeiher ("A Indústria da Cultur…

Cânones, canhões e outras considerações

Porque é que há obras-primas conhecidas - que são também desconhecidas do grande público?  A pergunta é das primeiras que um estudante de Literatura faz ao confrontar-se com o chamado "cânone": obras (e muitas vezes autores) que são considerados a referência; esta serve para definir  uma série de categorias, de estilo, a material, às próprias definições de movimentos literários, muitas vezes até ao que tão volatilmente e fruta-da-epocamente chamamos "gosto". Mas mais interessante é perceber porque é que isso aconteceu, e continua a acontecer. Por mais que tenha lidado com o problema nos anos em que fiz crítica, ou na tese que escrevi sobre José Régio, o facto bateu-me à porta com uma peça de música: o concerto Nº5 de Saint-Saens. Várias peças de Saint-Saëns são bastante interpretadas e elementos centrais do repertório erudito, embora não sejam as Sinfonias de Beethoven ou as óperas de Wagner: o "Carnaval dos Animais", a Sinfonia Nº3 "com órgão"…

How I met your dictator, parte I

A direita portuguesa tem-me espantado estes dias.
Poderia jurar - várias vezes até o defendi - que se tratava de uma direita democrática, velando pelo funcionamento do estado democrático, procurando o bem comum, inspirada em princípios cristãos. Parece-me que o efeito da eleição de Bolsonaro tem agido como revelador do que esta direita portuguesa realmente pensa. Primeiro, a afirmação extraordinária de Assunção Cristas - uma mulher democrata-cristã - de que preferia não votar a escolher entre Haddad e Bolsonaro; entre um democrata e um adepto da tortura, da violência, não só machista mas contra as mulheres. Assunção Cristas não deve ter ouvido Bolsonaro dizer em sessão plenária no Senado a outra mulher (outra senadora) que ela "nem merecia ser violada" - num desrespeito incomensurável pelas instituições e acima de tudo por outro ser humano. Não sei quantas leis no céu e na terra aquela afirmação quebrou. O El País fez uma selecção desta e doutras frases, se Assunção Cristas…

Um copo de Malte

Por várias vezes estive perdido e ele encontrou-me. Na verdade, tem sido ele o meu encontrador - queria dizer salvador - mas é mais isto: ele encontra a minha dor, conhece-a, percebe-a. Salga-a por dentro de luz. E é ferido mas percebido que prossigo. Falo de Rilke - mas contar esta história de encontro e multiplicação não sei ainda fazer. É algo demasiado íntimo, na fronteira de mim comigo, para o conseguir dizer. Mas há dias, uns caixotes de mudanças inacabadas trouxeram a desordem bibliográfica que os livros pedem, e aqui em casa aterrou Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, sublinhado e cavo como um fogo antigo. Para contar o que me fez, partilho um velho artigo que escrevi na altura da sua edição no então Canal de Livros, o primeiro site de crítica literária na internet em Portugal. O ficheiro data de 13 de Maio de 2014, pelo que deve ter sido publicado pouco depois. Distância falando, escrevê-lo ia hoje diferentemente, mais seco na prosa e no olhar; mas que maior homenagem a Rilke - …

Brasil: o início do fim

À hora em que escrevo faltam ainda 24 horas para saber quem vai ganhar as presidenciais no Brasil, se Haddad, se Bolsonaro. Tudo indica que será o último, e com ele a vitória da extrema-direita no Brasil. O que tenho para comentar é apenas o papel de muitos supostos democratas no Brasil e em Portugal, que preferiram ódios pessoais à defesa da Democracia. A afirmação mais famosa foi de Assunção Cristas, presidente do CDS-PP, um partido democrata-cristão, que afirmou que entre os dois candidatos disse que "preferia não votar". Não há dúvidas sobre o que pensa num estado baseado no respeito das liberdades, da lei, e do cuidado pelas minorias e pelos oprimidos; uma atitude, aliás, extremamente cristã: e com isto o democrata e o cristão de que se arvora ficam claramente servidos. Mas também muitos no Brasil preferiram não manifestar o seu apoio a Haddad em vez de votar em Bolsonaro. Foi o caso de Ciro Gomes ou do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Grande lição daria a todo…